1968 - A rua ainda estava em terra batida ( Foto de José Oliveira "César")
2007
"Volto ao Quitexe e preparo-me para jantar, como de costume, no restaurante do Pacheco. Depois irei saber a hora para que estou escalado de guarda ao restaurante, agora transformado em dormitório e defendido toda a noite. Fazem-se turnos de uma hora , desde as 10 h da noite até às 6 da manhã. A vigia é feita no terraço que serve de pala à varanda do restaurante. Ali, durante toda a noite, dois homens, por turno, esperam de peito descoberto, o mais pequeno sinal de ataque para darem o alarme e abrirem fogo. Rara é a noite em que o alerta não soe, quase sempre vindo da Administração, onde estão alguns tropas e civis. O grito de alerta, normalmente seguido de disparos, é uma coisa terrível pois as pessoas que estão, por vezes, no primeiro sono entram em pânico. Uns correm descalços, outros em cuecas (que era o meu caso), outros tremem, outros choram, mas todos vão ocupar os seus lugares e ali ficam esperando o ataque. Passada meia hora chega-se à conclusão que, como sempre tem acontecido, é alarme falso.
Nesta noite vou estar de vigília, fazendo companhia aos companheiros que, de hora a hora, se vão revezando. Sentado num caixote na pala da varanda (de onde, de dia, se avistam os armazéns da minha fazenda) estou ali expectante, esperando que algum clarão de fogo rompa a noite como sinal do incêndio da roça. Até às seis horas da manhã nada acontece. Termina a vigia, o pessoal que dormiu na camarata improvisada começa a aparecer para tomar o café. Para mim esta terá sido a noite mais longa de todas as noites."
Quitexe 61 - Uma Tragédia Anunciada
João Nogueira Garcia