O Sr. Guedes
Quando cheguei ao Quitexe (fins de 1961 início de 1962), conheci o Sr. Guedes (para os amigos simplesmente Guedes). O Guedes, na altura dos trágicos acontecimentos de 15 de Março de 1961, parece que se viu apertado. De tal maneira que fez uma promessa (já não sei a que santo) de andar um ano inteiro sem fazer a barba.
Com as enormes barbas, entretanto crescidas, o Guedes parecia um patriarca bíblico. Só as viria a cotar no dia 15 de Março de 1962. Quando as cortou, todos estranhámos o seu aspecto. Não parecia o mesmo. Afinal não é impunemente que se cortam umas barbas de respeito. Como eram as do Guedes.
O Guedes sabia trabalhar muito bem a madeira. Por isso, consciente da sua mestria, não gostava que lhe chamassem carpinteiro. Apenas marceneiro.
Como marceneiro, o Guedes trabalhou na oficina da Administração, pago com verbas do orçamento da Comissão Municipal do Quitexe. Como era um belíssimo conversador, a carpintaria, que funcionava num barracão junto ao edifício da Administração, era muito frequentada sobretudo pelos funcionários de que eu também fazia parte. Organizavam-se ali verdadeiras tertúlias que, na altura e face à situação do Quitexe, muito contribuíam para nos manter moralizados.
Recordo-me de uma obra-prima do Guedes. Fez uma verdadeira obra de arte em madeira embutida que representava as armas do batalhão que na altura ali se encontrava. Salvo erro era o Batalhão 317 (não sei se a identificação está cem por cento correcta).
Acontece que o Batalhão referido ia ser rendido e a peça artística era para, na hora da despedida, ser oferecida ao Comandante Militar pelo Administrador (já não sei exactamente qual). Cheguei a ver a obra-prima pronta. Hoje deve estar algures em Portugal a enfeitar uma prateleira de algum dos descendentes do então Comandante Militar do Quitexe. E o Guedes, onde estará hoje o amigo Guedes?
Arlindo de Sousa