Domingo, 27 de Maio de 2012

27 de Maio de 77 nas páginas do Jornal de Angola

Comemoram-se hoje 35 anos sobre os acontecimentos do 27 de maio de 1977 em Angola.

 

Passados 35 anos ainda as emoções estão vivas e é fácil ter opiniões maniqueístas sobre o assunto. De um lado os bons, que dedicaram a vida à revolução, do outro os torcionários que se aproveitaram do golpe e, numa espiral de terror, vingaram os seus mortos num banho de sangue que eliminou os melhores de uma geração. Familiares, amigos e camaradas de longa data viram-se dos dois lados das trincheiras.

 

 

Infelizmente a realidade foi mais complexa e há perguntas que nunca terão uma resposta:

 

 

A repressão teria sido tão violenta se não tivessem sido mortos os membros destacados do MPLA? (Ainda me pergunto, hoje, se em Portugal no 11 de Março ou no 25 de Novembro de 75, tivessem sido mortos 7 militares de Abril, de um ou do outro lado da barricada, conforme o vencedor, não teríamos tido, também uma purga de trágicas consequências.)

 

 

E se o golpe tivesse triunfado? Os vencedores seriam menos violentos e tolerantes para com os vencidos? (Os indivíduos mortos, nas poucas horas que durou a revolta, não auguravam nada de bom)

 

 

O terror gerado não foi apenas uma continuação das tensões, ódios e intolerância gerados aquando da independência e na luta por esta?

 

 

 Um partido que sobreviveu pelas armas, pela exclusão dos outros (ou excluía ou era excluído), poderia resolver as suas contradições internas, sem ser também pelas armas?

 

 

Seria possível não copiar os métodos da polícia política do colonialismo, dos torcionários da Pide, igualando-os em requintes de malvadez?

 

Neste blogue temos denunciado a fúria revanchista que se seguiu às atrocidades cometidas em 61,  pela UPA/FNLA, no norte de Angola. A sede de vingança suplanta a mínima racionalidade e reduz o homem à condição de besta. Os milhares de vítimas inocentes aí estão para denunciar, em todas as épocas, a cegueira do ódio rancoroso e vingativo.

 

Passados 35 anos, vistas à luz da evolução política, desde essa data, parecem ridículas as divergências, então,  insanáveis entre os diversos setores do MPLA. Com muita ou pouca convicção, por livre e dedicada opção, ou por pressão dos tempos todos abraçam a causa do capitalismo triunfante com mais ou menos roupagem nacionalista ou democrática. Os tiques autoritários, esses, vão-se mantendo.

 

Uns anos depois, mais a sul, embora já noutro contexto histórico internacional, Nelson Mandela e o ANC provaram que era possível abdicar do ódio, da vingança, do terror, evitando nova guerra com base nos preconceitos  tribais, ideológicos e raciais.

 

Infelizmente, em Angola os homens foram pequeninos na tolerância, na convivência democrática, no respeito pelo outro.

 

 

 O "Jornal de Angola" foi um dos mais sólidos sustentáculos da linha oficial do MPLA e terá sido um dos meios utlizados na campanha para a mobilização e preparação do povo angolano para a purga revanchista que se seguiu ao 27 de Maio.

 

 Tivemos acesso aos exemplares do diário "Jonal de Angola" publicado nos 15 dias que se seguiram à tentativa de golpe. São esses jornais que vamos analisar.

 

 

 

O Jornal de Angola de sábado 28 de maio de 1977 apresenta na 1ª página a fotografia do Presidente da República Agostinho Neto e as suas duas comunicações ao país feitas na véspera.

 

 

Na primeira, feita às 15 horas do dia 27 denota-se ainda um tom conciliador, deixando transparecer que os revoltosos teriam uma base alargada de apoio dada a necessidade de se garantir que se mantem a opção socialista e o apelo para a compreensão pelo povo das medidas duras a tomar contra os revoltosos. Estes ainda são tratados por camaradas e, ainda é aberta uma porta à sua reabilitação. É, também, feita uma alusão à incompreensão de países amigos, numa clara alusão à posição dúbia da União Soviética perante o golpe.

 

“Queria hoje afirmar, mais uma vez, a nossa disposição, a disposição do Comité central do MPLA, do Bureau Político, de continuar na via revolucionária, de fazer com que o povo angolano siga o caminho para o socialismo.(…)

Temos uma série de países capitalistas que estarão contra nós.(…) Temos países amigos, e embora amigos, são países que não compreendem bem a nossa opção. (…)

Nos últimos dois dias, nós debatemos aqui em Angola, alguns problemas que dizem respeito  à nossa vida nacional. Problemas que dizem respeito ao Povo angolano, problemas que dizem respeito ao MPLA e à nossa organização política. Alguns camaradas desnortearam-se. Pensaram que a nossa opção seria dirigida contra eles, que a nossa opção seria contra os seus próprios interesses individuais e de grupos. E portanto, começaram  a agitar-se.

E assim, hoje houve uma certa perturbação, da parte da manhã, aqui no nosso país, e, concretamente, na nossa cidade de Luanda que não corresponde, de maneira nenhuma aos sentimentos gerais de todo um povo. (…)

E  esta manhã o que se pretendeu, o que foi? Pretendeu-se demonstrar que já não há revolução em Angola que já não há revolução porque os fraccionistas tinham sido expulsos do Movimento ou tinham sido afastados do Comité Central, como o José Van-Dúnem e Nito Alves. Será Assim? Eu acho que não. Nós não podemos limitar a atividade do Movimento a pessoas cuja atividade está contra a organização, contra a sua linha unitária.

Eles foram expulsos e, na minha opinião, foram muito bem expulsos do Comité Central. E, terão de fazer um grande trabalho de reabilitação para poderem regressara às fileiras do movimento. (…).

E eu penso que os factos que ocorreram hoje e que fizeram perder vidas farão com que nós tomemos medidas, talvez não muito agradáveis, em relação a determinados indivíduos, que pensam deter nas suas mãos toda a verdade sobre a política do nosso País.

Eu penso que o nosso povo vai compreender porque razão nós agiremos com uma certa dureza, porque razão nós agiremos de maneira drástica, em relação a indivíduos qua agiram hoje com má fé. Que agiram hoje de maneira a perturbar até a calma na nossa capital, dando portanto ocasião para que o imperialismo possa novamente atacar o nosso Movimento, o nosso povo e o nosso País.

Camaradas, era isso que eu queria dizer. E espero que as medidas que serão tomadas em relação àqueles que quiseram liquidar o nosso Movimento, àqueles que pegaram em armas para destruir o MPLA, sejam bem compreendidas.”

 

 

Na segunda comunicação, feita no mesmo dia, ao fim da tarde, o discurso endureceu. Além da situação já estar totalmente controlada, começa a ter-se a perceção do número de mortos. No entanto ainda não há a confirmação da morte dos elementos destacados do MPLA que tinham sido raptados.

O tratamento dos revoltosos passa de camaradas a ex-camaradas, mas ainda há um apelo aos que se deixaram enganar para que reflitam no que se passou. Ainda fala em julgamentos e justiça, embora conclua: “Não há mais tolerância. Nós vamos proceder de uma maneira firme e dura.”

 

“(..) estes acontecimentos são graves, porque provocaram a perda de vidas humanas. Quer dizer que os fraccionistas, que nós condenamos há pouco tempo, não hesitaram em matar os nossos camaradas, em matar os nossos compatriotas, para poderem ter o caminho livre. (…)

Confirma-se desta maneira, embora seja uma maneira bastante dolorosa, que existe o fraccionismo. Que quando nós dizíamos que havia organizações paralelas no País, dento do MPLA, nós tínhamos razão. E confirma-se também, a violência que caracteriza a sua actuação, o racismo, o tribalismo, o regionalismo, que caracterizam todas as organizações reacionárias.

(…) Alguns dos nossos camaradas, até esta hora, ainda não foram encontrados. Não sabemos se estão mortos se estão vivos. São camaradas que deram toda uma vida para a independência do nosso país, que deram toda uma vida para a liberdade do povo de Angola. (…) os seus corpos serão encontrados se estiverem mortos. Eles serão encontrados se estiverem vivos.(…)

Hoje, todos eles, aqueles que dirigem o fraccionismo fugiram da capital, estão escondidos. Amanhã serão encontrados e, depois haverá os julgamentos, haverá o veredicto do Movimento haverá, portanto, a justiça.

Neste momento – em que nós estamos a combater contra forças que nos atacam do exterior – é muito estranho que os esquerdistas, os ultrarrevolucionários venham combater-nos também. É muito estranho…

Que espécie de alianças há? Que espécie de combinações existem?

Espero que o nosso povo, o povo angolano, espero que, principalmente, a população de Luanda, não confunda esta situação com a luta de libertação nacional que fizemos, durante longo tempo, contra o colonialismo português.(…)

Espero, por outro lado, que aqueles que se encontram enganados, diante dos assassinatos que foram feitos hoje, diante dos crimes que foram praticados, reflitam acerca do futuro do nosso país.

Aproveitou-se de tudo, do abastecimento, da falta de transportes, enfim de muitas outras coisas e, finalmente era para defender duas ou três figuras que hoje não são senão defensores da reacção. Porque ninguém me pode vir dizer que esses camaradas, ou ex-camaradas, estão a defender a Revolução. Estão sim a defender a contra-revolução. Estão a defender a reacção.(…)

E quero também dizer que não haverá para aqueles que se introduziram numa luta contra o MPLA qualquer espécie de contemplação, qualquer espécie de perdão. Nós falamos da tolerância aqui há meses. Mas essa tolerância não foi interpretada no seu devido sentido e, agora, Não há mais essa oportunidade. Não há mais tolerância. Nós vamos proceder de uma maneira firme e dura.”

 

 

 

O Jornal de Angola dá, também conta de dois comunicados do bureau político do MPLA. No emitido às 13h30 m do dia 27 afirma-se:

 

Agitadores a soldo do imperialismo internacional e da reacção interna, têm procurado desde as primeiras horas da manhã, provocar uma situação de confusão e destruição, desorientando o povo com palavras de orem contra-revolucionárias.

Tendo conseguido por alguns momentos, infiltrar na Rádio Nacional alguns dos seus conhecidos agentes, utilizando Nito Alves como bandeira, procuraram arrastar o Povo de Luanda para manifestações insensatas contra o Governo, não hesitando, para isso, em utilizar o nome do MPLA.

O Comité Central do MPLA e todos os militantes honestos(…) proclamam que controlam a situação. (…)

Abaixo os agentes do imperialismo! Abaixo os fraccionistas aventureiros! Aluta continua! A vitória é certa!”

 

Na página 3 é publicado o comunicado do bureau político emitido no dia 26, dando a conhecer as decisões do 5º plenário do Comité Central que levaria ao despoletar da tentativa de golpe.

Este comunicado, lido pelo Camarada Lúcio Lara refere nomeadamente:

 

“Para fomentar o divisionismo no seio do nosso povo muito têm contribuído grupos fracccionistas que, à semelhança do que já aconteceu no passado, desenvolvem uma actividade a coberto do MPLA mas fora das suas estruturas(…).

Os componentes dessas fracções quase sempre revelam uma fraca consciência política e ideológica, um espírito de grandes sabedores e de grandes teóricos, papagueiam muitas palavras de difícil entendimento para o nosso povo, não contribuem para o estudo e para a solução dos problemas concretos (…)

Os novos fraccionistas conseguiram montar oma organização clandestina a partir de um “secretariado” criado no antigo DOM nacional pelo camarada Nito Alves, Esse secretariado, dirigido por Cita Vales, recrutou “Activistas” que, após uma preparação especial, iniciaram um trabalho de organização rigorosamente clandestino, cuja estrutura só mais tarde se veio a descobrir. Essa estrutura tocava todos os sectores de Luanda, desde o sector operário ao sector bairros, e ramificava-se por algumas províncias, organizações de massas e forças armadas.

Fingindo combater outros grupos fraccionistas, e escondendo-se sob a capa de um “marxismo-leninismo” verbalista,, os novos fracccioniastas escudavam-se numa fingida devoção a este ou aquele país amigo, não hesitando mesmo em visitar certas embaixadas onde se empenhavam em caluniar o MPLA, e certos militantes e dirigentes do MPLA.

Usando e abusando de uma fraseologia demagógica resultante da leitura mal assimilada dos clássicos do marxismio-leninismo, os novos fraccionistas iludiam as massas eos militantes classificando este e aquele militante de “direitista”, de “esquerdista”, de “maoista”, de “Anti-soviético”, de “socialista Nacional”, de “social-democrata”, camuflando assim a sua ideologia de essência reacionária, regionalista e racista.(…)

Como disse o Camarada Presidente “que todos os militantes do MPLA, que todos os activistas, que todos os membros dos Comités, de acordo com as decisões do Comité Central, façam um combate verdadeiro e sério contra todos os fraccionistas que encontrarem no seu caminho.

Luanda 26 de Maio de 1977"

 

No cinema Avis "Lenine 1918 - indica-nos o caminho: A revolução deve esmagar a contra-revolução"

 

 

 

A última página é prenchida com uma fotografia de Agostinho Neto

 

 

João Garcia

publicado por Quimbanze às 07:43

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