Sábado, 10 de Março de 2012

Fragata de Morais lança Batuque Mukongo

 

“Batuque Mukongo” é o título do novo livro do escritor Fragata de Morais que foi apresentado, ontem na União dos Escritores Angolanos, por José Luís Mendonça.


Neste livro o seu autor traz a público memórias em forma de poesia.


Para o escritor José Luís Mendonça, autor do prefácio, “Batuque Mukongo” é a poesia épica, feita através da história de um país e também dentro de uma perspectiva pessoal do seu próprio autor.


O prefaciador do livro considera ainda que os poemas de “Batuque Mukongo” são uma fonte de inspiração para os jovens, de esperança para os descrentes e de homenagem a Angola, descrita por meio de uma análise profunda, feita por Fragata de Morais, através do tempo.


“Para ser luminosa, a poesia tem de vir à rua com um ritmo próprio, uma certa musicalidade intrínseca, como uma canção silenciosa que soa na alma do leitor, com uma cinestesia formal que faz do verso um edifício, uma paisagem, ou um animal colectivo se movendo entre nuvens de poeira sintagmática”, descreve José Luís Mendonça os poemas de “Batuque Mukongo”.

 

Assim, com esta mescla de saudade, dor, orgulho e elevação, lembra Fragata de Morais a sua relação materna com a rica terra do café, lugar do mundo de onde veio para ele, merecedor de uma homenagem em forma de poesia original, um escrito intenso que parte da página 13 e se apaga na 45.
 
Na verdade, o que se lê é uma espécie de poema único, marcado apenas com um discreto número ao alto no lugar onde era suposto existir o título, fazendo lembrar um rio que se esgueira por entre o matagal verdejante de uma qualquer baixa do Quitexe, o município cheio de roças e cafezais onde o escritor/político/diplomata viu a luz pela primeira vez, há 70 anos. 
 
  
O autor já publicou obras como, “Como Iam as Velhas Saber Disso”, “A Seiva”, “Inkuna Minha Terra”, “Jindunguices”, “Momentos de Ilusão”, “A Sonhar se Fez Verdade”, “Antologia Panorâmica de Textos Dramáticos”, “A Prece dos Mal Amados”; “Sumaúma”, “Memórias da Ilha-Crónicas” e “Fantástico na Prosa Angolana”.
 
Fragata de Morais nasceu na província do Uíge. Os seus primeiros escritos aparecerem na década de 1960 em Paris, onde frequentou a Universidade Internacional do Teatro e trabalhou com André Louis Perinetti e Victor Garcia. É diplomata de carreira. 
 
 
1
Sem desígnio
invoco o morro da memória
no trinar das cigarras
disperso na fadiga
do batuque
que chamava a noite
e o fim do morro
entregues por mais um dia à lua
antes de descer o morro
pelo funil do trinar das cigarras


2
Fui criança da chuva
em terras de esperança
fui chuva criança
pela mão da minha avó
escura
como o breu envolvente
da miséria de um povo
sem caminho nem vau
no rio grande
por onde subiu a nau
de velas insufladas
ao anúncio dos ngoma
dos chingufu
dos tambores surdos
e do ulular rítmico
no queixume das sereias
coladas à morte pegajosa
penetrando silenciosa
as rugas dos desejos impossíveis
como visgo escorregadio
no casco das árvores milenares crescidas a esmo
 
 

3

Acreditava que o Sol

não nasceria para além do horizonte

por onde deslizavam

as vozes choradas dos contratados

em seus cantares saudosos

da terra deixada para trás

na ilusão de uma melhor vida

mais sal mais sabão

oração que mal não faz

dinheiro para a escola

panos para a mulher

e a bicicleta de ferro

com farolim brilhante

para alumiar o que não se via

que rugisse soberana

nos carreiros e picadas

que tracejavam o planalto

formigueiro de caminhos

que a todos os sítios do anseio iam

sem levar a lugar algum

a não ser às roças do Norte

às roças muitas vezes da morte

 

 

4

Uíge na Uízi

terra onde nasci

catrapim pim pim

que te afastas de mim

Uíge na Uízi

onde nasci

às cinco da tarde

explodi do ventre da mãe

ao canto do pírulas

mãe materna

mãe terra

mãe sorte

mãe água do rio

rio de outras águas maternas

chovidas ou não

chuva rugido de leão

chuva marca leve das pegadas da gazela

nascido para o mundo

às cinco da tarde

no Uíge na Uízi

quase apagada memória

da longa e única rua

de casas de adobe

de pau a pique

em pique de pau

novo e logo envelhecido

no tragar do salalé

que não sabia de arquitecturas

na linearidade da rua

onde o pau a pique

por fora e por dentro

salpicado de barro vermelho

florido de várias camadas de cal

apaziguou os gritos do parto

às cinco da tarde

de um Novembro sofrido

no ventre de uma bela mulher

Alice com Maria mãe de Deus

dores gemidas na culpa bíblica

porém Maria sempre Alice

a embalar em seus braços exaustos

o novo mundo

ainda envolto

nos líquidos maternos

mas logo a chamar

pela boca da avó materna

os antepassados

da linhagem

para o batuque

tuque norte

tuque sul

tuque este

tuque oeste

em cada ermo do mundo

cada tuque batido

uma bênção solta

no balido do cabrito esgoelado

na pele do boi malhado

preto e branco

preto mukongo

branco beirão

batuque mukongo dos reis antigos

fado do branco vindo dos mares

 

5

Assim nasci

às cinco da tarde

no Uíge na Uízi

terra onde nasci

catrapim pim pim

que te afastas de mim

 

In Batuque Mukongo

União dos Escritores Angolanos 2011

 

Poema retirado do blogue http://www.literaturafragatademorais.blogspot.com/

 

publicado por Quimbanze às 07:29

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