Sábado, 18 de Agosto de 2007

Holden Roberto

 Morreu, no dia 2 deste mês, Holden Roberto, último signatário vivo dos acordos de Alvor. Não consta que alguma vez tenha estado no Quitexe, mas influenciou de forma determinante a vida desta povoação. Herói, terrorista, patriota, comunista, reaccionário, agente do imperialismo americano, nacionalista, déspota, conciliador, corrupto, amante da paz. Todos estes epítetos podemos encontrar escritos sobre este homem, tão divergentes e díspares eram as opiniões conforme o ângulo de quem as emitia.

Para o povo angolano e para a História de Angola ficará, sem dúvida, como um dos seus maiores heróis, iniciador e dirigente da luta de libertação nacional.

Para os portugueses e angolanos (nomeadamente Bailundos) que sofreram na carne a revolta sangrenta do 15 de Março terá sido um líder sanguinário, racista e tribalista.

Para os povos do norte de Angola que se rebelaram em 61 era o grande líder, que os libertaria da opressão do colonialismo português, como Lumumba fizera no Congo, com os colonialistas belgas.

Para os guerrilheiro do MPLA dizimados pela acção do exército da UPA/FNLA quando tentavam chegar às suas áreas de guerrilha era um traidor, aliado dos colonialistas e um agente zeloso do imperialismo americano.

Para muitos militantes da FNLA que com ele se incompatibilizaram terá sido um déspota, corrupto e autoritário.

Para os que em Luanda declararam a independência de Angola era um traidor, fantoche nas mãos de Mobuto e da CIA.

 Para Savimbi, seu antigo ministro no GRAE (Governo Revolucionário de Angola no Exílio), Holden Roberto apenas foi útil enquanto teve força militar. Quando em 75 a FNLA foi derrotada no Norte de Angola, deixou de servir na sua estratégia pessoal de conquista do poder.

Para muitos angolanos Holden Roberto passou a ser uma referência recusando a guerra fratricida em que se empenharam o Governo e a UNITA.

Com a sua influência cada vez mais reduzida, com a sua base de apoio restringida ao seu grupo étnico (apenas venceu as eleições de 92 na sua província natal do Zaire, e com escassa margem, tendo sido relegado para o quarto lugar a nível nacional), com grande parte dos seus antigos companheiros a integrarem-se no MPLA, sem apoios internacionais e sem conseguir a unidade no seu próprio partido o Velho Holden, por opção própria, ou por força destas circunstâncias soube granjear o respeito da maioria dos angolanos, optando pela paz, mas mantendo a coerência dos seus princípios, a independência da sua voz e o prestígio devido a um velho combatente.

 

Dados biográficos (adaptado de textos da "Lusa")

 O líder histórico da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), Holden Roberto, que morreu no dia 2/08/07, em Luanda, aos 84 anos, foi um dos três dirigentes angolanos subscritores do Acordo do Alvor, que levou Angola à independência.

Álvaro Holden Roberto nasceu a 12 de Janeiro de 1923 em Mbanza Congo, ex-São Salvador, província angolana do Zaire e fez os estudos primários e secundários em Léopoldville (actual Kinshasa, capital da RDCongo), onde viveu de 1925 a 1940, altura em que regressa à terra natal, onde fica pouco mais de um ano.

Durante oito anos foi contabilista na administração colonial belga e foi amigo de alguns futuros políticos congoleses.

Em 1956, lançou-se na luta de libertação nacional, dois anos depois da criação da União dos Povos do Norte de Angola (UPNA), mais tarde designada UPA.

Foi já como representante da UPA que levou, em 1958, à primeira Conferência dos Povos Africanos, realizada no Gana, a questão do trabalho forçado em Angola.

Dois anos mais tarde, na segunda Conferência dos Povos Africanos, defendeu a independência de Angola, mas recusou-se a aderir ao Movimento Anti-Colonialista (MAC), que juntava Amílcar Cabral, Mário de Andrade e Lúcio Lara.

Além de Lumumba, manteve também contactos com Kenneth Kaunda, Tom Mboya, Franz Fanon, entre outras personalidades da vida política africana.

Sob a direcção de Holden Roberto, a UPA iniciou, em 15 de Março de 1961, a guerrilha no norte de Angola, com o assalto às fazendas do café e a morte indiscriminada de colonos brancos e trabalhadores negros bailundos. A brutalidade  desta acção forneceu ao regime português as imagens de horror e barbárie que lhe permitiram apelar à mobilização para a guerra e à repressão e vingança desenfreada.

Em 1962 criou a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), da qual se tornou presidente. Seria esta organização que viria a constituir, ainda em 1962, o Governo Revolucionário de Angola no Exílio (GRAE), onde Jonas Savimbi surge como ministro dos Negócios Estrangeiros.

Em 10 de Outubro de 1974, Holden Roberto encabeçou a delegação da FNLA nas conversações com o Governo português, em Kinshasa, com vista a pôr fim às hostilidades em Angola, entre a FNLA e o exército português.

Em Janeiro de 1975, Holden Roberto, juntamente com Agostinho Neto (MPLA) e Jonas Savimbi (UNITA) assinaram com o Estado português o Acordo do Alvor, que estipulava o processo e calendário do acesso de Angola à independência, proclamada a 11 de Novembro do mesmo ano.

Depois da independência e com o início da guerra civil em Angola, a FNLA foi derrotada pelas forças do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola, no poder) e Holden Roberto refugiou-se no Zaire (actual RDCongo), de cujo presidente (Mobutu Sese Seko) era cunhado.

Em 1979, Mobutu assina um acordo com Agostinho Neto, então Presidente de Angola, e Holden Roberto vê limitada a sua actividade, já que passou a ter residência fixa e vigiada.

Expulso de Kinshasa, Holden Roberto depois de uma passagem pelo Gabão, chegou a Paris, onde obteve em 1980 o estatuto de exilado.

Regressou a Luanda a 31 de Agosto de 1991, após a assinatura, a 31 de Maio, do Acordo de Paz de Bicesse.

Nas primeiras e únicas eleições gerais realizadas em Angola (30 de Setembro e 01 de Outubro de 1992), a FNLA elegeu cinco lugares no parlamento, enquanto Holden Roberto ficou em quarto lugar, depois de José Eduardo dos Santos, Jonas Savimbi, e Alberto Neto

Crises internas na FNLA, chegaram a afastar Holden Roberto da presidência do partido, concedendo-lhe o título de presidente honorário e, mais tarde reconduzindo-o à presidência, primeiro de uma facção e depois do partido, após diversas tentativas de reunificação.

publicado por Quimbanze às 12:35

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