Domingo, 30 de Outubro de 2011

A batalha de Ambuíla / Mbwila - 29 de outubro de 1665 -2ª parte

 

 

 

O exército português tinha ordem para ir ocupar as minas situadas no outeiro do Embo. Seguiria por Cazoangongo, em direcção às terras do Dembo D. Francisco Sebastião, e daí, atravessando o rio Dande, caminharia entre os Dembos de Mutemo-a-Quinguengo e Ambuíla, para depois prosseguir a sua marcha entre Coxi e Ambuela, onde se informaria da situação do Outeiro do Embo. Era comandado por Luis Lopes de Sequeira, cabo de guerra, natural de Luanda. Chegaram ao rio Zenza, com uma força de 200 homens armados de arcabuzes, levando consigo duas peças de artilharia. Ali se juntou a chamada “guerra preta”, constituída por quilambas, jagas e escravos dos portugueses e sobas fieis. Mas receoso que as suas forças fossem insuficientes pede reforços a Luanda recebendo mais 100 homens bem armados e municiados mas “os mais deles reformados e soldados velhos”.

O exército português seria assim de 360 mosqueteiros portugueses e de 6 a 7 mil negros. Estes últimos tinham sido escolhidos entre gente com prática de combate e especial aptidão para a guerra, como os Imbangalas.  

 

Entretanto do outeiro do Congo partira o rei com o grosso das suas forças, que iam aumentando à partida que se deslocavam. Ao seu lado encontravam-se o Duque de Bamba, capitão general das forças congolesas, o poderoso Conde de Sonho, os Duques de Bata e de Súndi, os Marqueses de Bumbi e de Pemba e outros vassalos fidalgos, ao todo uns cem mil homens, conforme o cálculo dos cronistas da época (História General das Guerras Angolanas, António Oliveira de Cardonega), que provavelmente pecam, largamente, por excesso. O exército do Rei do Congo teria, ainda, cerca de 300 mosqueteiros, 29 dos quais, portugueses, liderados por Pedro Dias Cabral.

 

Caminhava o exército do rei do Congo ao encontro das tropas portuguesas, quando a cerca de 80 léguas da sua corte, teve conhecimento da proximidade destas.

A vanguarda, constituída por cerca de vinte mil homens, directamente comandadas pelo Duque de Bamba, remete-se ao ataque. Eram nove horas da manhã do dia 29 de Outubro de 1665. O quadrado português, em fileiras dobradas, apoiava uma das faces num bosque, no lugar de Ulanga, junto das pedras de Ambuíla, no alto Loje. À aproximação das massas inimigas, precedida de densa poeirada que escurecia o horizonte, começou a manifestar-se na “guerra preta” portuguesa, que constituía as avançadas uma grande inquietação. Aos primeiros contactos cerca de 4000 negros puseram-se em fuga.

Quando a onda da vanguarda inimiga chegou ao alcance, o fogo do quadrado rompeu. Em face da segurança do tiro, a onda humana que avançava hesita, detêm-se e recua em confusa gritaria. A frente do quadrado estava juncada de centenas de mortos e feridos.

 

 

 

O rei do Congo ao saber da derrota investe com o grosso das suas tropas. Os portugueses, na folga que se sucede à luta,  restabelecem as sua fileiras e reabastecem-se de munições.

Agora a poderosa linha que avançava, envolta em nuvens de poeira, desenhava já de longe um movimento envolvente das tropas portuguesas, de larga envergadura. Guiando e impulsionando essa mole humana, vinha o próprio rei, cuja figura alta e forte, se destacava majestosamente acima dos guerreiros. O quadrado português consegue manter-se organizado e vai resistindo às sucessivas vagas “granizando balas e centilhando fogo”.

O próprio rei, embraçando uma adraga e armado de espada cortadeira e cercado da melhor nobreza do Congo atira-se à luta.

 

Em volta dele, na confusão da refrega, desenha-se um agitado remoinho de corpos em luta: mal ferido por uma bala perdida, o rei tombara por terra e tentava erguer-se. Para esse ponto, onde a juventude congolesa se batia heroicamente em defesa do rei, converge, por instinto, o fogo do quadrado. E de repente, um quilamba das tropas portuguesas, que conseguira aproximar-se do rei ensanguentado, vibra-lhe um golpe, degolando o monarca. A sua cabeça é espetada e erguida ao cimo duma lança alta. O desânimo e o pânico gerado arrasta na fuga o exército congolês.

 

Em sua perseguição, lançam-se os negros fieis aos portugueses e, pela noite fora – a batalha durara 6 horas – nos longes da planura a carnagem prolonga-se em cenas de sanguinária ferocidade.

 

Tinham tombado no campo da batalha e depois na perseguição para cima de cinco mil negros congoleses, dos quais 98 titulares e mais 400 fidalgos de outra nobreza; tinham caído nas mãos dos portugueses um filho bastardo do rei e mais dois do seu irmão Afonso, o seu camareiro e o seu confessor, Padre Manuel Rodrigues, e o seu capelão, Capuchinho Padre Manuel Reboredo, ficara morto no campo. Entre a considerável massa de despojos figurava uma grande carruagem com malas cheias de panos valiosos e dois contadores com jóias e outras peças em oiro. Mas a peça mais importante seria a coroa imperial de prata dourada oferecida ao rei Garcia II pelo papa Inocêncio X em 1648, que foi depois remetida para Lisboa.

 

 

Em Luanda ainda se mantem o largo com o nome do herói português da Batalha de Ambuíla

 

Luiz Lopes Sequeira, ilustre cabo de guerra, crioluo, natural de Luanda, filho de Domingos Lopes de Sequeira, que em 1643 fora a Portugal pedir socorro para os defensores de Massangano e que, regressando a Angola, com este socorro veio a morrer massacrado peloa jagas, em junho de 1645, quando à testa da guarda avançada dessa coluna, demandava o rio Cuanza. Depois de vencer o rei do Congo em Ambuíla, Luiz Lopes Sequeira dominou o rei de Dongo nas Pedras de Pungo-Andongo (29/11/1671) e, ainda o rei de Matamba, caíndo morto nesta última acção (4/09/1681)

 Continua

 

 

publicado por Quimbanze às 07:27

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