Quarta-feira, 19 de Maio de 2010

Notas sobre Santo António de Caculo Caenda e sobre o alferes David Magno - Parte 2 - João Cabral

Iniciado o confronto nesse ano de 1907, muitos milhares de homens estiveram envolvidos. 12.000 é um dos números indicados para o total de guerreiros reunidos pelos Dembos. Os portugueses sempre foram bastante menos, raramente excedendo as centenas.

Entre muitos outros recontros similares, “A 20 de Outubro, depois de encarniçada defesa do Cazuangongo (um ‘Soba’, chefe regional), a sua banza (povoação-residência de um chefe gentílico, acampamento fortificado) de Santo António de Lisboa foi tomada à baioneta. Para resistir ao assalto, o dembo mandou incendiá-la parcialmente, mas em vão. Os seus arquivos arderam, mas os portugueses recuperaram algumas armas perdidas em 1872 e já inutilizadas.”

Noroeste de Angola (1848-1878) - Pélissier, René - Les Campanges Coloniales du Portugal

 

No ano seguinte, em 1908, já Cazuangongo reconstruíra a sua banza de Santo António de Lisboa. Porém, a 23 de Julho os portugueses voltaram a atacar a banza, desta vez usando um canhão até lá rebocado. Mais uma vez foram bem sucedidos… porém, “Depois desta vitória, a tropa abandonou a posição, que era perigosa, e regressou a Maravila. Sofrera 6 ou 7 mortos e trazia 20 feridos…”. “Era já evidente (1909), e durante mais de dez anos continuaria a sê-lo: o fortim de Maravila estava numa região inimiga.”

“Foi bem nas terras do Golungo-Alto português, a sul do Zenza, que durante vinte dias, a contar de 15 de Fevereiro de 1909, operou uma coluna de 133 soldados, comandada pelos alferes António Bargão e David Magno.”…

“Dois anos depois de João de Almeida, os brancos continuavam proibidos de permanecer nos Dembos. Paiva Couceiro chegou a pensar dirigir pessoalmente uma grande coluna que dispersasse o Caculo Cahenda e abrisse o caminho para o Congo. Lisboa recusou-lhe os homens para isso. O Caculo Cahenda aconselhava os portugueses a que não fossem incomodá-lo. Mas seria o seu poder tão sólido como o prestígio?”…

 

Esclareça-se que, naquela amálgama em que os portugueses tornaram uno o que não o era, Caculo Cahenda era entendido como o maior e mais importante dos muitos Dembos. Como tal, Caculo Cahenda era a tendencialmente efectiva força de liderança da revolta, mas também o necessário e icónico símbolo a derrubar numa vitória desejada pelos portugueses. E foi aqui que o alferes Magno   – o pretexto deste texto – jogou um papel decisivo. Voltemos a René Pélissier, exactamente no ponto onde o deixámos.

 

“No flanco sul, ia ter de…” – o Caculo Cahenda) – “… enfrentar, de 1909 a 1912, (com interrupções em 1910 e 1911), um oficial de vaidade dificilmente suportável mas extremamente temível, visto que preferia a diplomacia ás balasO alferes David José Gonçalves Magno era comandante militar do Lombige e não descansaria enquanto não fosse senhor do Caculo Cahenda e não conseguisse aliciar o titular do dembado, D. Domingos Miguel Sebastião, um Dembo bastante pacífico devido, talvez, à idade.

O oficial começou por fingir salvar a vida a um dos filhos do Caculo Cahenda…e,  por fim, atirou os Dembos uns contra os outros. Apenas com 21 soldados disciplinares europeus e 23 soldados moçambicanos, entrou finalmente, de maneira pacífica, a 27 de Setembro de 1909, na banza do Caculo Cahenda, um verdadeiro ninho de águias inacessível. Os portugueses tinham o Caculo Cahenda na conta de ser o mais poderoso de todos os Dembos; mas Magno conseguiu persuadi-lo de que aquela força era somente a guarda avançada de uma imponente coluna de ocupação… Para concluir a construção do fortim, Magno ficaria cinco meses no Caculo Cahenda, quase ignorado de Luanda e vítima do bloqueio económico dos comerciantes do Golungo Alto. Finalmente, a 22 de Fevereiro de 1910, içou a bandeira na montanha (1000 m).”…

… “Magno mandara deslocar de Camabatela para Santo António de Caculo Cahendaa sede do Lombige e iniciara uma política indígena à francesa; monografia etnológica, abertura de uma escola, instalação de uma casa comercial. A intenção era confessada: queria colher só para si a glória de ter pacificado toda a região dos Dembos.” Isto ainda em 1910.

Nos anos de 1910 e 1911 Magno foi substituído, mas regressou em 1912. Contudo… “… havia um mal-entendido: o Caculo Cahenda, tido por suserano dos Dembos e dos sobas de menor importância era o único que estava ocupado…”. E ele pretendeu apoio dos portugueses para se impor aos outros Dembos. Não o teve!

E a rebelião do Caculo Cahenda retomou o viço em Junho de 1913. Magno já não estava por lá e a prática diplomática também não. Norton de Matos – então no seu primeiro período enquanto Governador-Geral – procurou restabelecer a ordem, mas…

“Segundo um perito na matéria – que neste caso era David Magno – seria necessário enviar uma coluna de, pelo menos, 300 homens… David Magno ia também, a título de guia e de especialista.” Os portugueses foram bem sucedidos. “Ergueu-se um fortim na pista de Caculo Cahenda, que os habitantes tinham desertado quando a expedição lá entrou a 10 de Agosto.” Entretanto o velho Dembo escapara para norte… “… continuava na floresta e os seus vizinhos continuavam a não pagar imposto. David Magno, no entanto, recomendou que se lhe poupasse a banza para o fazer voltar por meios suaves. E para ter futuros contribuintes! Quando ele partiu novamente, os erros redobraram.” Incendiaram a banza…

 

Termina por aqui a relação directa de David Magno com os Dembos. Mas a revolta continuou, para só terminar com um “anjo exterminador”, em Novembro-Dezembro de 1918. “Evitaremos dizer que foi a ‘solução final’ dos Dembos, mas gostaríamos de conhecer melhor a personalidade do capitão Eugénio Ribeiro de Almeida, que ia encarregar-se dessa tarefa.”… “Em 1919-1920, o imposto de cubata rendeu nos Dembos 46 contos. A nova ordem colonial consolidava-se. Já não havia Dembos aliados nem vassalos a corresponder-se com Luanda, havia apenas Dembos servidores.”

 

Foi então, a partir desse anos 20, que começou a ocupação efectiva do território da futura Angola, com sucessivas demarcações de terras, cada vez mais dentro e mais fundo no território previamente, não muitos anos antes, desenhado num mapa cor de sonho. E só então começava a erguer-se, de facto, a Angola que já não era apenas o velho reino de Ndongo/Angola. E era a economia de plantação            – particularmente o café – a vigorar forte por resposta aos mercados internacionais. Mas tudo isto sem que algum qualquer plano prévio e governamental o tivesse definido. Nada disso: aconteceu assim, porque sim… apenas por força e obra de uma colonização livre e não orientada pelos sucessivos governos.

 

Como será bom de ver, esta nova Angola é a única que os novos colonizadores – cujos filhos ainda hoje sobrevivem – podem recordar. A outra, imediatamente antes – a de David Magno – já não a conheceram e, por tal razão, não a recordam. Assim, foi com alguma surpresa, para eles, mas não para quem ler estas linhas, que foi exactamente por aquelas terras dos Dembos que a revolta de 1961 começou. Afinal, entre os dias de David Magno, nos anos de 1907 a 1913, e os dias de 1961 distam menos de 50 anos.

 

Uma nota final: no livro em referência, René Pélissier utilizou as seguintes obras escritas por David Magno:

- “Relatórios dos serviços militares do Lombige” (Governo Geral da Província de Angola), Relatórios. 1910, Luanda. A actividade de um capitão-mor astuto nos Dembos.

- “A ocupação dos Dembos”, Revista Militar, Anno LXVI, nº 9, Setembro de 1914. Como apoderar-se dos Dembos segundo Magno.

- “A sublevação dos Dembos de 1913”, b.S.G.L., 34ª série, nº 10-12, Outubro-Dezembro de 1916. Narrativa em primeira mão.

 

João Cabral

publicado por Quimbanze às 20:35

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2 comentários:
De Antonio fula mussengue a 17 de Abril de 2013 às 07:41
É a minha comuna entaõ tenho que lembrar que o meu passado lutou muito.
De Antonio fula mussengue a 17 de Abril de 2013 às 07:36
É a minha comuna entaõ tenho que lembrar que o meu passado lutou muito.

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