Domingo, 24 de Junho de 2007

DR ASSOREIRA- O HOMEM E O MÉDICO

Por João Nogueira Garcia

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Cabe aqui relatar um dos acontecimentos que mais cimentou a grande amizade e respeito que eu nutria pelo Dr. Assoreira, como homem e como médico.

 

            Certo dia, em conversa, eu, o meu irmão Alfredo e o Mário Carranca concluímos que uma cerâmica no Quitexe seria um investimento rentável dado o volume de construção e a falta de materiais pois desde o tijolo à areia e ao cimento, tudo vinha de Luanda. De cerâmica, todos os três percebíamos tanto como de um lagar de azeite... Mesmo assim, e segundo a técnica africana do desenrasca, fomos ver onde poderia haver barro e onde comprar a máquina de fazer tijolos e telhas; os barracões de secagem seriam conforme o modelo africano de pau a pique e cobertura em chapas de alumínio. Alguém que saiba trabalhar com as máquinas e com o forno virá mais tarde.

 

            Vamos fazer uma sociedade que se dominará “Cerâmica do Encoje L.da”. Feita a escritura encomendamos à firma Costa Neri uma fieira para tijolos e uma prensa para telha. Esperamos, agora, a vinda do barco de Portugal trazendo as máquinas enquanto se vão fazendo os barracões e o forno.

 

            Uns tempos depois a cerâmica, que ficou localizada junto à nascente do Rio Cassenge, no limite da nossa fazenda e da sanzala do Quimassabi, está pronta a laborar. Um motor Lister de 30 cv fará mover todas as máquinas e já temos um empregado, recém chegado de Portugal, que diz ter trabalhado numa cerâmica. Foi , então, feita no local uma provisória cubata onde o empregado Baltazar pernoitava e, ao lado, uma cozinha com uma divisão para o criado, que também era cozinheiro, dormir e fazer companhia ao branco.

 

            O Baltazar é um rapagão forte, com 22 ou 23 anos cheio de vontade de triunfar na vida. É Minhoto o que não é vulgar no norte de Angola onde os Beirões e Transmontanos são predominantes. Como novo que é foram-lhe transmitidos os cuidados a ter, sobretudo com o paludismo: tomar todos os dias quinino ou camoquine e dormir sempre com mosquiteiro. Esta é uma regra de procedimento que não deve ser esquecida pese, embora, o zunido nos ouvidos provocado pelo quinino e o calor mais abafado na cama com o uso do mosquiteiro. A vida na Cerâmica segue a compasso lento, enquanto o pessoal se vai adaptando a trabalhar ao ritmo das máquinas. Aos domingos o Baltazar vem almoçar ao Quitexe e, à noite, lá o vou levar.

 

            Certo dia, a meio da semana, aparece-me na loja do Quitexe o criado do Baltazar muito aflito dizendo que o branco da cerâmica estava com muita febre e a urinar sangue e pedia ao patrão para o ir buscar. Digo à Aline para ficar na loja e vou para a cerâmica.

 

            Lembrei-me do Miranda que três anos antes havia morrido com uma biliosa e entrei em pânico.

Quando cheguei ao Quitexe, levei o Baltazar para um quarto anexo da casa enquanto segui para o posto

 sanitário para trazer o Monteiro, enfermeiro branco, que ao ver a febre alta e a urina com sangue torce o nariz.

-         E agora, enfermeiro Monteiro?

-         Tem que ir ver se o Dr. Assoreira  está na fazenda pois ele é o único médico em Angola que nunca deixou ninguém morrer com uma biliosa.

 

Vou, então, para a Quinta das Arcas, propriedade do Dr. Assoreira. Tive sorte, ele estava em casa.

 

-         Entra, oh João!

-         Não vale a pena, Doutor!, e relatei-lhe o sucedido.

-         Vai andando pois tenho que avisar o Galina de que vou ao Quitexe.

 

Arranquei, o Monteiro ainda estava junto ao doente aguardando o meu regresso. Passados dez minutos chega o doutor e vamos os três ver o doente.

-         Monteiro, tira-lhe a febre e tu, Baltazar vê se consegues urinar para este frasco.

 

A febre está alta e o Baltazar, sentado na cama lá consegue... O frasco fica meio, mas a cor da urina é da cor do sangue.

 

-         Oh Monteiro no Posto há soro?

-         Há sim Sr. Doutor.

-         Então põe-o já a soro, vamos ver se baixamos a febre e se a urina começa a clarear. Entretanto dá-lhe estes medicamentos que amanhã venho ver como é que ele reage ao tratamento.

 

O Dr. Assoreira é visita assídua cá de casa. Sempre que aqui passa vem cumprimentar-nos. Vamos para a sala e ele confirma que o rapaz está com uma biliosa, mas só amanhã se pode saber como vai evoluir. Relato-lhe o caso do Miranda, três anos antes:

 

-         Este vai ter assistência pois eu vou acompanhar a doença.

-         Bem-haja!

-         Tem é que vigiar o enfermeiro Monteiro, porque se lhe dá para a bebedeira...

-         A quem o diz.

 

O enfermeiro era um bom profissional mas só da parte da manhã; de tarde embriagava-se e eu era, todos os dias,  a última vítima a ter que o aturar no regresso ao posto sanitário.

 

            Começo a ficar apreensivo, pois não há maneira da febre baixar e as urinas aclararem. O Dr. Assoreira volta no outro dia e, também ele torce o nariz. Depois de auscultar o doente e analisar a urina o médico conclui que não há melhoras, antes pelo contrário, todo o organismo enfraquece rapidamente e, então pede-me para ir à farmácia do Uíge buscar plasma sanguíneo.

 

            Eu chamo o cozinheiro Ramiro para vir comigo e o Doutor volta para a fazenda, que dista vinte e tal quilómetros do Quitexe, prometendo vir logo à noite para injectar o plasma. Duas horas e meia depois estou de volta e fico a fazer companhia ao Baltazar que fala da mãe e do pai e da febre que não o larga. Tento animá-lo, que vai tudo correr bem. Quando eu não estou o Videira (mafuca da loja) ou o Oliveira ficam de sentinela à porta do quarto. O Ramiro, cozinheiro, vai fazendo uns caldos que o Baltazar a custo engole. O fantasma da morte começa a atormentar-me, lembrando-me cada vez mais do drama de há três anos com o Miranda.

 

            No fim do jantar o médico volta para aplicar o plasma. Vou buscar o enfermeiro e fico a assistir ao tratamento, mas a urina não dá sinais de aclarar e já vamos no segundo dia de tratamento. A nossa esperança é que a aplicação do plasma venha alterar a situação.

 

            Durante a noite levantei-me três vezes para ir ver o doente; só uma vez se apercebeu da minha presença, pus-lhe a mão na testa e noto que tem muita febre. O Videira, que está à porta dorme e nem deu pela minha entrada no quarto.

 

            Logo de manhã o Abílio Guerra e o Jaime Rei vêm saber como está o doente. O Carranca, Chefe de Posto, também aparece para saber da evolução da doença. Às onze horas chega o Dr. Assoreira que, depois de observar o Baltazar, começa a sentir-se impotente para debelar a doença pois o plasma não deu o resultado esperado. Aparece, então, o Baptista do Pumbaloge a perguntar pelo rapaz:

 

-         Está muito mal; Um jovem com 23 anos, um rapaz na flor da vida e vai morrer e logo na minha casa!

 

            O Dr. Assoreira ouviu o meu comentário. Olho para a sua cara e vejo nele um homem inconformado, disposto a desafiar a tragédia da morte. Diz-me que volta à fazenda buscar uns livros e umas seringas e, logo que possa, regressa.

 

            O Enfermeiro Monteiro tomou consciência da situação e, já ontem de tarde, se manteve sóbrio. E calculo o esforço daquele homem que, já viciado no álcool, me vem pedir um copo de água, em vez de aguardente ou conhaque.

 

             O Dr. Assoreira, que nestes dias entregou ao Galina ( um cabo-verdiano que era o seu homem de confiança) a missão de tomar conta da fazenda, volta de novo para o Quitexe; tira da carrinha uns três livros volumosos, um estojo com três grandes seringas e outros utensílios de cuidados de saúde. Vai sentar-se na sala e ali fica, durante algum tempo, lendo ora num, ora noutro livro. A seu pedido vou chamar o enfermeiro a quem ele incumbe de ferver as seringas e agulhas pois resolveu, mesmo sem condições apropriadas, fazer uma transfusão de sangue.

 

            Agora é preciso arranjar dadores e ver se o sangue é compatível com o do Baltazar. Vou falar com os vizinhos, o Abílio, o Jaime Rei e, também o Rocha todos nós estamos disponíveis. O médico coloca no parapeito da janela uma lamela, o enfermeiro tira uma pequeníssima quantidade de sangue ao paciente e, cada um de nós deixa cair separadamente uma gota de sangue, extraída da ponta do dedo, sobre a lamela. Agora o doutor deita uma gota de sangue do Baltazar ao lado de cada uma das nossas e, pegando no estilete tenta uni-las numa só. Mas má sorte, nenhuma das nossas quatro gotas se ligou, os tipos de sangue eram incompatíveis. É o desânimo em todos nós, pois estávamos desejosos por ajudar a salvar o Baltazar.

 

             Já é noite, cada um regressa às suas casas. Fico apenas eu e o médico, e a Aline que se juntou a nós depois de adormecer o Tózé. Resolvemos esperar pelo Fiúza, que dormia lá em casa, por uns dias, mas que tinha ido ao Uíge para jogar e beber whisky. Já era perto da meia-noite quando o Fiúza aparece. Posto ao corrente da situação adere sem hesitação. E lá se torna a repetir a operação, agora sem a ajuda do enfermeiro que também foi para casa: primeiro a gota de sangue do Baltazar na lamela e depois o Fiúza a deixar cair uma sua ao lado. Milagre! As duas gotas formam uma só! Está encontrado o dador, que de imediato se vai deitar na cama, enquanto três grandes seringas são alinhadas ao lado do seu braço. A Aline arranja uma tigela de loiça e uma colher, tudo bem desinfectado. A tigela serve para pôr o sangue extraído pelas seringas e a colher para o ir mexendo, afim de não coalhar. Este serviço está a cargo da Aline. Eu seguro o petromax que dá boa luz.

 

            A operação vai começar. A agulha já está dentro da veia do Fiúza e, lentamente, vai enchendo as seringas que, uma a uma vão sendo despejadas na tigela; a Aline não pode parar de mexer. De seguida, o Dr. Assoreira com a seringa, a Aline com o sangue e eu com o candeeiro vamos para o outro quarto repetir a operação mas em sentido inverso. Agora o Baltazar é o receptor. A operação é lenta mas, por fim o Baltazar tem a circular nas suas veias três seringas de sangue novo

.

            O Dr. Assoreira, homem rijo como o granito das penedias do seu Trás-os-Montes, está exausto. A luta que trava, em condições tão precárias, contra a morte não tem paralelo nos anais da história da medicina da região. Agora, com a certeza do dever cumprido, regressa à sua Quinta das Arcas esperando que, no dia seguinte, o efeito da  transfusão se faça sentir e o doente comece a apresentar sinais de melhoras.

 

            A nossa vizinha D.ª Helena, pessoa muito católica, que acompanha a situação do Baltazar, temendo um desenlace fatal pede ao marido, Abílio Guerra, para ir a Camabatela, à Missão dos Capuchinhos, buscar um padre italiano para dar a extrema-unção ao moribundo.

Depois do almoço eu e o enfermeiro esperamos pelo médico, mas o Monteiro está muito preocupado pois o coração do Baltazar está cada vez mais fraco. Com a chegada do doutor vamos os três a caminho do quarto, que era um anexo da casa, quando nos surge pela frente, saindo do quarto, um padre barbudo, todo paramentado. O Dr. Assoreira, sentindo-se chocado, apenas diz:

 

-         Eu ainda não me fui embora!

           

 

 

 Dr. Assoreira no Posto Administrativo do Quitexe

 

  

Entramos no quarto e, de facto o coração do Baltazar não vai resistir muito mais tempo. O médico pergunta ao enfermeiro se ele tem ali óleo canforado:

 

-         Está aqui uma ampola .

-         Então, por descargo de consciência, injecta-lhe na veia 1 cm3

.

            Passados uns segundos o coração reage favoravelmente e, lentamente, o ritmo recupera. Agora vamos esperar. Uma hora mais tarde a febre começa a baixar e a urina, finalmente, dá sinais de aclarar. É o sinal há quatro dias esperado, a biliosa começa a ceder. Segundo o Dr. Assoreira as próximas horas serão decisivas e conclusivas.

 

            O Baltazar nestes quatro dias deve ter perdido mais de vinte quilos. É impressionante como o organismo, em tão poucos dias, perde todas as defesas. Ele, coitadito, nem se apercebeu da gravidade pois a febre era tal que o mantinha numa grande prostração. Com o andar das horas confirma-se que a urina continua a aclarar, o tom vermelho vai dando lugar ao cor-de-rosa; a febre também desce. Uma alegria, ainda contida, começa a aflorar no nosso espírito. O Dr. Assoreira acabara de tirar das garras da morte um jovem que já estava encomendado pelo padre para entrar no Reino dos Céus. A transfusão de sangue resultara!

           

            Mês e meio depois, o Baltazar está restabelecido; O apetite é tal que não há comida que o farte. Vem dizer-me que gostava de ficar no Quitexe. Peremptoriamente disse-lhe:

 

-         Fuja destas terras e matagais, vá para o sul ou vá para Portugal!

 

            Lá partiu e nunca mais soube dele. Fiquei com a consciência de que fiz por ele aquilo que só alguns pais fazem por um filho. O Dr. Assoreira, o Homem e o Médico é o herói de todo este drama, que por pouco não acabou em tragédia. O Monteiro, que continua a ser um grande enfermeiro na parte da manhã, até diz, na parte da tarde, que foi ele que salvou o Baltazar pois o médico mandou-lhe dar 1 cm3 de óleo canforado e ele injectou um bocadinho mais e foi isso que o salvou...

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GARCIA, João Nogueira - Quitexe 61 - Uma Tragédia Anunciada

publicado por Quimbanze às 12:18

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