Sábado, 23 de Junho de 2007

As casas comerciais

RELEMBRANDO TERRAS DO QUITEXE

 

Alfredo Baeta Garcia

 

Cap. VI

 

As casas comerciais

 

As casas de construção definitiva que formavam a povoação eram cerca de 70, não considerando os edifícios públicos. Na sua maioria eram casas comerciais que, por aquilo que recordo do nome dos seus proprietários, eram as seguintes:

 

Laurindo Ribeiro

Castro da serração

Melgueira e Dias

Doiot

Viúva Guerreiro

Irmãos Correia (Manda Fama) –depois Tavares

Mário Trangalho

José Guerreiro

Pardal

Irmãos Santiago (antes de Almeida)

João Alves

Alfredo Barata

António Rocha

Celestino Guerra

Tavares

Carneiro – Guarda Fiscal

José Morais

Manuel da Pasta

Luís Correia – depois António Ramos

José Rei

Carlos Gaspar

José Morais -2ª

Antunes do Talho – depois Pimenta

Augusto Guerra

Silva Fogueteiro

Dias Mecânico – alugada aos Correios

Madame Van Der Schaff – depois irmãos Guerreiro

Josué Pacheco

Martins Gonçalves – depois Ramos

Joaquim Soreto

Norberto Morais

Jaime Rei

José Bastos Sobrinho – a primeira no tempo que foi de Rui Pombo

Ferreira

Ricardo Gaspar & Cª.

Celestino Guerra – 2ª

João Garcia

Abílio Guerra

José Pires

Manuel Topete

Guedes

Fontes – depois Carvalho Alfaiate

publicado por Quimbanze às 17:21

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6 comentários:
De Arlindo de Sousa a 5 de Agosto de 2008 às 19:55
Silva Fogueteiro

Também me recordo do Sr. Silva Fogueteiro. Era conhecido pelo seu feitio temperamental. E imprevisível.
Quando por alguma razão, a Administração ou a Comissão Municipal precisavam de o citar para alguma coisa, era sempre um problema. Negava-se a assinar e pronto. Mantinha-se inflexível na sua posição de recusa.
De tal maneira que em uma das vezes, com uma citação judicial, resolveu-se o problema da seguinte maneira: o oficial de diligências, que na altura me parece era o Varela (ainda hei-de dedicar também algumas linhas recordativas a este amigo), foi ao estabelecimento do Sr. Silva Fogueteiro, acompanhado de duas testemunhas, leu o mandado em voz alta e as testemunhas assinaram. De imediato, o Varela anunciou em voz bem audível: para todos efeitos, o Sr. Silva está legalmente citado e sofrerá as consequências se não cumprir o que acaba de lhe ser lido.
A instabilidade comportamental do Sr. Silva parecia dever-se ao facto de andar sempre às turras com a mulher. Coitado. Como dizia uma velhota alcoólica que conheci em Luanda, há sempre uma razão na vida que explica os nossos comportamentos. Mesmo os mais subtis. Como se vê, o vinho dava a esta velhota, que eu encontrei algumas vezes caída de bêbeda, para a “alta filosofia”.
Sucede que o Sr. Silva e a esposa tinham uma sobrinha, que na altura vivia com eles no Quitexe, por quem um Aspirante Interino da Administração (não menciono o nome por razões óbvias) se enamorou. No ardor da paixão, o Aspirante meteu-se à sorrelfa no quintal e, num sítio escuso, entre outras coisas, teria aproveitado para dizer coisas de encantar à moça.
Pelos vistos, o Silva andava à coca. Apercebendo-se da situação, foi buscar espingarda e surpreendeu os enamorados em flagrante. Com grande estardalhaço, e indiferente às infelizes lágrimas da sobrinha, obrigou o Aspirante a colocar-se no meio do quintal e manteve-o ali detido sob a mira da arma.
Foi um escândalo. Veio o Administrador e não sei mais quem que lá libertaram o não menos infeliz Aspirante que durante uns dias foi enviado de quarentena para Camabatela até a borrasca passar. Creio que, como soe dizer-se, acabou por ficar tudo em águas de bacalhau.
Mais tarde, o Sr. Silva veio a aumentar a violência e a frequência das turras com a mulher (a gritaria e os berros até se ouviam na Administração), que acabou por deixá-lo sozinho. Um dia ainda vi os fundamentos que um e outro invocavam perante os tribunais. Algumas das peças do processo atribuídas ao Sr. Silva apresentavam uma linguagem absolutamente imprópria. Enfim. Tempos que já lá vão.
De Arlindo de Sousa a 5 de Agosto de 2008 às 12:38
O Sr. Guedes

Quando cheguei ao Quitexe (fins de 1961 início de 1962), conheci o Sr. Guedes (para os amigos simplesmente Guedes). O Guedes, na altura dos trágicos acontecimentos de 15 de Março de 1961, parece que se viu apertado. De tal maneira que fez uma promessa (já não sei a que santo) de andar um ano inteiro sem fazer a barba.
Com as enormes barbas, entretanto crescidas, o Guedes parecia um patriarca bíblico. Só as viria a cotar no dia 15 de Março de 1962. Quando as cortou, todos estranhámos o seu aspecto. Não parecia o mesmo. Afinal não é impunemente que se cortam umas barbas de respeito. Como eram as do Guedes.
O Guedes sabia trabalhar muito bem a madeira. Por isso, consciente da sua mestria, não gostava que lhe chamassem carpinteiro. Apenas marceneiro.
Como marceneiro, o Guedes trabalhou na oficina da Administração, pago com verbas do orçamento da Comissão Municipal do Quitexe. Como era um belíssimo conversador, a carpintaria, que funcionava num barracão junto ao edifício da Administração, era muito frequentada sobretudo pelos funcionários de que eu também fazia parte. Organizavam-se ali verdadeiras tertúlias que, na altura e face à situação do Quitexe, muito contribuíam para nos manter moralizados.
Recordo-me de uma obra-prima do Guedes. Fez uma verdadeira obra de arte em madeira embutida que representava as armas do batalhão que na altura ali se encontrava. Salvo erro era o Batalhão 317 (não sei se a identificação está cem por cento correcta).
Acontece que o Batalhão referido ia ser rendido e a peça artística era para, na hora da despedida, ser oferecida ao Comandante Militar pelo Administrador (já não sei exactamente qual). Cheguei a ver a obra-prima pronta. Hoje deve estar algures em Portugal a enfeitar uma prateleira de algum dos descendentes do então Comandante Militar do Quitexe. E o Guedes, onde estará hoje o amigo Guedes?
De Arlindo de Sousa a 5 de Agosto de 2008 às 11:56
Bar Morais
Lembro-me do Sr. Morais (para os amigos apenas Morais). O estabelecimento dele em 1961-1963 ficava na esquina das ruas que conduziam: uma à estrada que levava a Aldeia Viçosa, Vista Alegre e Luanda; a outra conduzia à pista de aviação do Quitexe.
Quando eu lá estive, os vidros das montras, partidos na sequência dos acontecimentos de 15 de Março de 1961, ainda não tinham sido repostos.
O Morais era gordo e gostava de fazer alarde da sua qualidade de comilão. Se calhar era só conversa para todos nos rirmos. Contava muitas histórias sobre as suas comezainas.
Uma que ele gostava muito contar era a dos 500 escudos. Vou tentar contá-la em poucas palavras. Quando ele veio da metrópole, desembarcou em Luanda e instalou-se numa pensão daquela cidade. Como comilão que dizia ser, muito honestamente avisou logo o dono da pensão que ele, Morais, gostava de comer bem.
A resposta do dono da pensão foi que não havia problema. Podia comer à vontade e não pagaria mais por isso. Feito o contrato, passaram-se dois, três, quatro dias, uma semana. O dono da pensão começou a constatar que o Morais comia de facto muito. E que assim não podia ser. Avisou o Morais de que, a comer assim, no fim do mês tinha que pagar mais que os outros comensais.
O dono da pensão e o seu comensal acordaram em novo preço e o Morais, claro, continuou a satisfazer o seu enorme apetite. Repetia vezes sem conta. De tal maneira que o dono da pensão, ao ver a vida a andar par trás, abordou de novo o Morais e disse-lhe: meu amigo, o senhor é uma pessoa simpática, mas come muito. Desculpe, mas tem de arranjar uma outra pensão. Olhe, não me paga nada e ainda lhe dou 500 escudos para se ir embora.
O Morais, Deus o tenha em paz (constou-me que já morreu), radiante, depois de ter comido quase um mês à borla e à tripa forra, pegou nos 500 escudos e mudou de pensão. É evidente que o fim da história era festejado com muitos comentários de grande vivacidade e estrondosas risadas.
O Morais, um verdadeiro ícone do Quitexe, era de uma enorme simpatia. Ao contar esta história, pretendo deste modo simples honrar-lhe a memória.
De Jorge Santos a 8 de Agosto de 2008 às 18:17
Gostaria aqui de cumprimentar, e felicitar o Sr. Professor Arlindo de Sousa, pelos belissimos testemunhos que aqui nos faz chegar, sobre factos, pessoas e acontecimentos que a todos nós que temos um laço umbilical ligado ao Quitexe , nos delicia.
Esta estória " do amigo Morais que aqui nos conta, fez-me recordar juntamente com os meus Pais, momentos ilariantes que passàmos com este grande ser Humano, que foi o Sr. Morais. O meu Pai conhecia a estória " dos 500 Escudos... O amigo Morais para além de um grande amigo da familia , era visita frequente da Fazenda Guerra & Cia. Um dia, numa dessas visitas, o amigo Morais ainda não tinha jantado. A minha Mãe, modéstia à parte, sempre teve um bom dedo na cozinha, e naquele dia em casa havia uma sopa de feijão e outros ingredientes, à qual o amigo Morais não soube resistir. Foi o 1º prato de sopa cheio até transbordar, foi o 2º, foi o 3º até ao 8º prato. Foram 8 pratos de sopa que o amigo Morais virou de uma assentada. Como devem calcular, a panela ficou vazia... Foi uma risada geral para todos.
Não podia deixar de partilhar com voçês, tambem esta maravilhosa estória " do AMIGO MORAIS.
Um abraço ao Sr. Professor, e a todos os amigos do Quitexe .
De Arlindo de Sousa a 8 de Agosto de 2008 às 23:07
Amigo Jorge Santos,

Fico-lhe muito grato pelo seu comentário. É a confirmação de que as qualidades humanas do Sr. Morais eram realmente extraordinárias. Cativavam todos os que eram bafejados pela sorte de o conhecer. Entre muitas outras pessoas, estou convencido de que a maioria dos portugueses, que por razões históricas passaram pelo Quitexe, deve ainda recordar com o maior carinho e respeito a figura comunicativa e alegre do amigo Morais. Sempre irradiando humanidade e boa disposição.
Pela sua mensagem, deduzo, não sei se correctamente, que o amigo Jorge Santos pertence à Família Guerra. Quem não se lembra dos Guerras e do seu dinamismo e importância no desenvolvimento do Quitexe e das suas gentes. Já lá vão quase cinquenta anos, mas na minha mente ainda permanece bem viva a ideia de que eram pessoas de trabalho e de muita acção. Qualidades que naturalmente suscitavam a maior consideração de todos. Inclusive das autoridades administrativas da época.
Termino, fazendo votos para que este espaço, tão bem orientado pelo Sr. João Garcia, possa ser cada vez mais um sítio de encontro autenticamente fraterno. Sempre valorizando a imaterialidade que inequivocamente nos liga ao universo físico e humano do Quitexe. Assim, e no âmbito desta preocupação essencialmente humana, sugiro que ignoremos os títulos académicos ou outros e nos tratemos apenas pelo nome de baptismo.
Para o amigo Jorge Santos e para todos os outros amigos, um grande abraço de,
Arlindo de Sousa
De Jorge Santos a 9 de Agosto de 2008 às 00:48
Amigo Arlindo de Sousa.
Quero tambem agradecer a suas palavras, em resposta ao meu comentário.
Naquela terra, realmente antes dos titulos académicos, valorizavam-se as pessoas pelas suas qualidades humanas. O relacionamento entre as pessoas, era de uma correcção e lealdade sem limites, o que levava a que as classes sociais se diluissem num todo, e se vivesse em saudável convivência.
Amigo Arlindo, de facto não pertencemos à familia Guerra. O meu Pai era Encarregado geral da Fazenda Guerra & Cia.. O sr. Ramos era sim representante da familia Guerra, e Gerente geral da Firma.
O meu Pai tambem lá passou o trágico 15 de Março de 61. Estes HOMENS foram de uma coragem extraordinária, perante tanta tragédia a sua volta. Pelo que li nos seus comentários, o amigo Arlindo tambem atravessou esta fase de 61. Sabe bem o que por lá se passou...
Um abraço para si, e toda a malta do Quitexe...

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