Domingo, 17 de Junho de 2007

1949 - A BILIOSA MATA NO QUITEXE

 

 

            Outubro, talvez Novembro de 1949, as chuvas já estavam de volta. Vindo da fazenda que o Ricardo Gaspar andava a fazer nas matas do Zalala, um branco é deixado na casa comercial da mesma firma, que tem sede no Uíge. O empregado do estabelecimento é o Jaime Gonçalves Rei, um transmontano, na altura solteiro como eu, a quem é entregue o moço que vem muito doente, a urinar sangue e com muita febre. Vem para ser assistido, mas o Quitexe está sem médico pois o Dr. Veloso raramente cá vem desde que passou a dar assistência à região de Cambambe, já nos Dembos. De enfermeiros, também estamos mal, pois foi aqui colocado um recém formado cabo-verdiano, sem qualquer experiência.. Alguém afirma tratar-se de uma biliosa, doença quase sempre fatal se não for imediatamente atacada. O enfermeiro, de nome Fortes, nunca ouvira falar de tal doença. Eu e o Rocha vamos ajudando o Rei a tratar do moço. Afinal somos os três, os únicos residentes na povoação.

 

            A situação agrava-se pois agora deixou de urinar, tornando a situação ainda mais complicada. É uma biliosa anúrica que mata em três dias pois a destruição do organismo com o sangue envenenado é tal que reduz o peso do paciente para metade nestes dias. Depois do enfermeiro dizer que nada podia fazer vamos ter com o Chefe do Posto, Lopes Soares e damos-lhe conta da situação. Ele estava bem consciente da gravidade da doença, pois como administrativo já várias vezes tinha notificado as autoridades e os familiares das vítimas da biliosa. E agora, que fazer? Hospital e médico só no Uíge ou em Camabatela; Camabatela era a sede do concelho do Quitexe, mas ficava a 70 Km e o Uíge a 50. Foi tomada a opção de ir ao Uíge buscar um médico pois além de mais perto tinha melhor estrada. A ida a Camabatela implicava subir a serra do Canancajungo, de muito difícil acesso, agora que as chuvas já começaram. Acaba de anoitecer e o Chefe do Posto, Lopes Soares diz:

 

-         Eu vou ao Uíge e você, Garcia, venha daí comigo!

 

            Naquela altura ninguém tinha carrinha, a não ser o médico. O chefe do Posto tinha, há pouco tempo, uma “chevrolet” oferecida pelos fazendeiros. Lá vamos os dois mais um cipaio que salta para as traseiras do carro. A parte difícil da viagem são os morros do Laurindo Ribeiro mas, ainda que  tenhamos que meter correntes, vamos chegar ao Uíge. Às nove horas entravamos na povoação e dirigimo-nos a casa do médico. O Chefe regressa à carrinha:

 

-         Vamos ao Ferreira Lima que ele está lá.

 

            Eu voltei a ficar na carrinha enquanto ele entra na residência. Esperei um bocado e eis que regressa sozinho:

 

-         Oh Garcia, o médico está a jogar às cartas e recusa-se a ir, dizendo que o Quitexe pertence a Camabatela. Expliquei-lhe a gravidade da situação, mas não o consegui demover.

 

            Só nos resta voltar pelo mesmo caminho, e é o que fazemos. Retornamos ao Quitexe cerca da meia-noite. O moço, de nome Miranda (se não me falha a memória), tinha piorado. Até lhe tinham dado cerveja, que é diurética, para ver se ele urinava e alguém já dizia:

 

-         Talvez um copo de espumante!

 

Barbaridades!

 

            Vamos esperar por amanhã. O Chefe do Posto foi para casa tentar, via rádio, contactar Camabatela, o que não é fácil, pois só ao meio-dia é que normalmente estão à escuta. Eu e o Jaime Rei ficamos no quarto do doente, enquanto o enfermeiro ia para o posto sanitário. Sem médico todos nós tomamos consciência que nada de bom irá acontecer nas próximas horas.

 

            De manhã aparece o enfermeiro, a febre não baixa e o coração bate cada vez mais fraco. Vem também o Chefe Lopes Soares que está inconformado com a atitude do médico. O Chefe está ao nosso lado. As horas vão passando e o desenlace fatal aproxima-se. O Miranda faz sinal com os braços e, numa voz já sumida, pede que o levantem. Sento-me por trás dele e levanto-o até ficar sentado com a cabeça encostada ao meu peito. De repente sinto a cabeça do Miranda tombar para o lado. O enfermeiro apalpa o pulso e diz que o coração deixou de bater, morreu!

 

            A notícia chega às quatro fazendas, Guerra & Cia, José Bastos, Matos Vaz e Pumbaloge, ao tempo as existentes no Quitexe. A indignação é grande e nós temos que reagir. No Quitexe não há cemitério e o chefe do posto, depois de contactar o Ricardo Gaspar, decide que o funeral se faz no Uíge em vez de Camabatela, o que vem ao encontro dos nossos desejos.

 

            A notícia da morte de um branco, a quem foi negada assistência médica cria uma onda de revolta. No dia seguinte a população do Quitexe constituída pelo cidadão António Lopes Soares (Chefe de Posto), eu , o Jaime Rei e o Rocha estamos preparados para acompanhar o corpo do Miranda que, ainda jovem, veio encontrar a morte onde esperaria, um dia, realizar o sonho de uma vida melhor. Também os empregados brancos e os proprietários ou gerentes das fazendas vão estar presentes. Chegados ao Uíge, somos surpreendidos com a adesão dos comerciantes que fecham as portas dos estabelecimentos e se encorporam no funeral.

 

             Mas para nós, homens do Quitexe, a revolta é grande. Sabendo que o Chefe do Posto estava do nosso lado fizemos seguir um telegrama para o Sr. Governador-geral de Angola que mostrava a nossa indignação por ter sido negada assistência médica a um compatriota que acabava de ser sepultado, solicitando que fossem tomadas providências. Muitos meses depois soubemos que Sua Excelência o Governador-geral tomara o assunto a peito e havia transferido o Delegado de Saúde do Uíge, que se negara a dar assistência ao Miranda. Como “castigo” foi ocupar o lugar na cidade mais apetecida de Angola, Luanda, onde ficaria pertinho das praias, dos cinemas e da Ilha, onde os mariscos e a cerveja fresquinha fariam esquecer essa Angola profunda onde homens rudes, talvez sem cultura, viviam e morriam na procura da terra prometida.

.

.Quitexe 61 - Uma Tragédia Anunciada - GARCIA, João Nogueira

publicado por Quimbanze às 23:20

link do post | comentar | favorito
|

.OUTRAS PÁGINAS

.posts recentes

. Batalhão de Caçadores 3 e...

. Município de Quitexe nece...

. O Nosso Bondoso Director

. Associação da União dos N...

. Governador do Uíge emposs...

. Plano Urbanístico do Quit...

. Fotografias do Quitexe - ...

. 15 de Março - "Perderam-n...

. Comentário de Victor Roma...

. Quitexe: Aumenta índice d...

.FOTOS

.MAIS FOTOS

.arquivos

. Junho 2017

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Novembro 2014

. Março 2014

. Janeiro 2014

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Janeiro 2013

. Setembro 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

.mais sobre mim

.Junho 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.pesquisar

 

.VISITAS

.ONDE ESTÃO

.No Mundo

.subscrever feeds