Domingo, 19 de Outubro de 2008

Recordações do Quitexe 61/63 por Arlindo de Sousa - Parte XIII

Apesar do turbilhão de violência e revolta independentista que assolava o Norte de Angola, havia quem na região do Quitexe insistisse em continuar a praticar, como anteriormente, injustiças. Quando tal acontecia, os militares estavam sempre disponíveis para apoiar a acção administrativa. Chegou mesmo a suceder serem os próprios militares a darem conhecimento de alguns desmandos à Administração. As autoridades militares e civis interessavam-se verdadeiramente em promover o bem-estar das populações. 

Administração do Quitexe

 

Contudo, havia problemas estruturais de difícil resolução, como era o caso dos milhares de bailundos engajados no Sul para trabalharem sob contrato nas fazendas de café do Norte de Angola. Quando se procedia ao seu repatriamento, depois de terem cumprido os contratos, o que é que se verificava pelas folhas de salários? Dois ou três capatazes recebiam, em remuneração pecuniária, tanto como 30 a 40 trabalhadores negros.

Esta situação de flagrante injustiça social, diariamente constatada, fazia com que os próprios funcionários administrativos, sem nada poderem fazer e agitando nervosamente as folhas de salários, se questionassem entre si em surdina: Vejam, vejam isto! Será que, a continuarmos assim, poderemos algum dia ganhar esta guerra? E havia mesmo quem, aproveitando o curto clima emocional de revolta assim criado, respondesse de imediato no mesmo tom e fugidiamente: Se eu estivesse no lugar deles, era terrorista de certeza absoluta. Aqui a palavra terrorista era apenas utilizada no sentido de guerrilheiro!

De vez em quando, e quando menos se esperava, propagava-se, com a velocidade de uma tempestuosa onda, enorme confusão de espanto, medo, impotência, perplexidade: alguns civis ou mesmo uma força militar em missão de patrulha haviam sido apanhados numa emboscada, tendo sofrido, mortos e feridos.

Nessas alturas, procedia-se, com a maior rapidez possível, à evacuação dos feridos graves, mobilizando-se os adequados meios aéreos. Quanto aos mortos, no dia seguinte, havia mais um cortejo fúnebre em direcção ao cemitério.

Gravados indelevelmente no meu espírito, entre muitas outras tristes, dolorosas e inesquecíveis recordações, ficaram a ecoar para sempre: os passos pesados e arrastados das botas dos que transportavam as urnas cobertas com a bandeira nacional; os vigorosos, mas magoados, discursos proferidos em tão fúnebres momentos; e as salvas estrondeantes em honra dos muitos militares portugueses que assim desceram às sepulturas. Tratava-se na maior parte dos casos de jovens que ainda no dia anterior gracejavam, riam, sonhavam...!

 

 

Enquanto tudo isto ia acontecendo: em Setembro de 1961, Salazar tinha entretanto acabado com o Estatuto do Indigenato na Guiné, Angola e Moçambique e elevava à categoria de cidadãos portugueses todos os habitantes daqueles territórios (1); em Dezembro de 1961, Goa, Damão e Dio caíam nas mãos da União Indiana; e ao longo de todo o ano de 1962 foram reprimidos com particular brutalidade todos aqueles que na Metrópole se vinham opondo ao regime ditatorial e insurgindo contra a guerra colonial, sendo de salientar, neste processo de contestação, as movimentações dos estudantes universitários constituídas por inúmeras acções de desobediência, greves e manifestações.

No interior da Administração

 

Eu, por meu turno, com base na experiência colhida no terreno e no clima social que o envolvia, comunicava para os meus pais:

  

 

Quitexe, 11 de Maio de 1962.

 

 

Com respeito à vossa possível vinda para Angola (2), os senhores melhor sabem o que fazer do que eu. Devo no entanto dizer-lhes o seguinte:

Angola é sem dúvida uma grande terra e com largos recursos... Tem terrenos onde se pode cultivar uma grande variedade de produtos e o seu subsolo é riquíssimo... Angola tem condições para ser uma terra de enorme progresso. Mas há a questão do terrorismo...

O terrorismo, aqui, por enquanto, é praticado com pequenos tiroteios..., tiros isolados, após os quais, os atacantes fogem sem deixarem rasto... Possuem pouco material. Algumas das armas, que têm, são as que roubaram aquando da eclosão dos acontecimentos de 15 de Março de 1961.

Os países vizinhos de Angola, principalmente a República do Congo (Brazzaville) e a República do Congo (Léopoldville), atingiram há pouco a independência. Em termos económicos e políticos, o Congo (Brazzaville) goza de certa estabilidade..., mas o Congo (Léopoldville) está a ser devorado pela fome, pela doença e pela guerra civil. Durante os próximos dez anos, estes países não terão grandes possibilidades de apoiar financeiramente os nossos inimigos.

Enquanto estes países se encontrarem assim, tudo em Angola correrá bem..., salvo os pequenos ataques isolados, aqui e além, dos terroristas. Mas, quando beneficiarem de uma situação mais desafogada: apoiarão, sem olharem a meios, a chamada libertação de Angola; e fornecerão das armas mais modernas aos denominados nacionalistas angolanos...

E, ainda por cima, nesta guerra, nem todos os portugueses estão unidos... Em Lisboa e noutros lugares de Portugal continental já começaram a fazer distúrbios...

Se todos os portugueses estivessem unidos, apesar do número dos inimigos (internos e externos) ser superior, com certeza que venceríamos. Mais tarde ou mais cedo, os terroristas acabariam por terminar a luta, cônscios de que nada fariam contra nós..., mas assim...

Escusado será dizer que isto não se deve relatar..., mas esta é a situação... Mal por mal, mais vale estarmos na terra, que nos viu nascer.

 

 

 

A terminologia utilizada na altura era a que fielmente se transcreve. Curiosamente, com o decorrer do tempo, o conceito de terrorista começa a perder o seu significado negro que lhe adveio das chacinas perpetradas, em 15 de Março de 1961 e nos dias e semanas que se seguiram, pela U.P.A.. De tal maneira aquele conceito se esvaziou do terror que lhe estava associado que, por último, era utilizado carinhosamente na comunicação familiar para admoestar, com a necessária brandura, a rebeldia ou o excesso de actividade das crianças mais pequenas.

Quanto à minha posição, em relação ao futuro de Angola, tendo na altura apenas 20 anos, acreditava sinceramente na ideia de uma pátria pluricontinental e multirracial, desde que, sem ditadura, tal fosse a vontade livremente expressa pelas populações interessadas e numa base de absoluta igualdade. Afinal, o grande espaço económico e político, constituído pela União Europeia, que necessariamente se veio a impor e ainda está em fase de aprofundamento e alargamento, não é na prática a realização de um ideal semelhante? Se portugueses, espanhóis, franceses ingleses, alemães... podem simultaneamente ser cidadãos europeus, por que é que portugueses, cabo-verdianos, guineenses, são-tomenses, angolanos, moçambicanos, timorenses e brasileiros não podem, se o desejarem, cooperar intensamente entre si e serem ao mesmo tempo cidadãos lusófonos?

 

 

 

 

(1) Em Abril de 1962, são promulgadas novas Leis do Trabalho Rural para as então Províncias Ultramarinas, adoptando, os antigos Serviços de Curadoria, a designação de Instituto do Trabalho.

 

(2) Era a resposta a mais uma sondagem que os meus familiares faziam junto de mim, com vista à sua eventual saída da terra em busca de melhores condições de vida. Afinal não era o que quase toda a gente estava a fazer, no mundo rural português, emigrando em massa para a França, Alemanha, Suíça, Luxemburgo, etc.?

 

Arlindo de Sousa

publicado por Quimbanze às 22:08

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