Segunda-feira, 29 de Setembro de 2008

Recordações do Quitexe 61/63 por Arlindo de Sousa - Parte IX

 

    Já disse anteriormente que em Aldeia Viçosa tudo estava a ser feito, na medida do possível, para recriar um clima de normalidade. Mas havia o dilema constante de termos de enfrentar diariamente inúmeras dificuldades. Uma delas, e seguramente a mais preocupante, residia no facto das populações autóctones estarem todas fugidas nas matas. Não se via ninguém. Perscrutava-se o horizonte e nada. Parecia que estávamos num planeta desabitado.
    Os sinais de vida, que por desdita de todos acabavam por reforçar o ambiente de morte, só se manifestavam quando surgiam as emboscadas. Nesses momentos, o atroz silêncio, em que o chamado sexto sentido nos dizia existirem guerrilheiros à espreita, transformava-se inopinadamente em Inferno. Passado o ataque, desde que não houvesse feridos ou mortos a lamentar, tudo voltava novamente a um quietude de cortar à faca. Apenas se fazia ouvir a monotonia do ruído dos motores das viaturas. E também o ranger das molas, com a resistência constantemente colocada à prova pelo piso irregular das estradas.
    A excepção à realidade descrita, ainda que inicialmente muito ténue, era constituída pelos bailundos que esforçada e dedicadamente contribuíam, com o seu trabalho e lealdade, para a realização do que veio a ser designado por milagre da recuperação económica. Para o referido milagre, verificado entre 1961 e 1975 data da Independência de Angola, também contribuíram depois as populações autóctones à medida que foram regressando das matas.
    Os bailundos cooperaram também com o seu heroísmo. Sozinhos nas fazendas, não foram  poucas as vezes que resistiram heroicamente a grupos então adversos. Frequentemente com o sacrifício da própria vida.
     Na Fazenda Vila Alice, mesmo em frente a Aldeia Viçosa, presenciei um sarilho nocturno, que foi resolvido pela capacidade de resistência dos trabalhadores bailundos, apoiados por um destemido grupo de militares do pelotão Companhia de Caçadores 89 que guarnecia Aldeia Viçosa. Era de noite. Acompanhei os militares e mais uma vez se manifestou a minha inexperiência. Chegados ao local, ao levantar-me para sair da viatura fiz um disparo acidental de que felizmente apenas resultou um furo na chapa, indo a bala da minha pistola-metralhadora FBP desaparecer no chão. Às vezes, a sorte protege-nos.
     Quem lidou com aquela arma, sabe muito bem que era muito falsa. Mas esta razão não é suficiente para que não confesse mais uma vez a minha total inexperiência na respectiva utilização. E o desconhecimento, em matéria de armamento, às vezes pode causar prejuízos irreparáveis. Ao próprio e a terceiros.
     Passados dias também se registou um problema na Fazenda Cassequel em que, entre outras atitudes hostis, elementos adversos dispararam tiros de canhangulo. Socorridos, os trabalhadores aguentaram-se com sucesso. No dia seguinte, ainda o amanhecer vinha longe, a tropa, que acompanhei pessoalmente, fez o reconhecimento das imediações da fazenda. Entre outros vestígios, encontrámos palhotas acabadas de abandonar ainda com o lume aceso. O objectivo era melhorar o clima de segurança no local. De todo indispensável à normalização da laboração daquela unidade agrícola.
     Em Aldeia Viçosa, por vezes também acontecia haver de noite situações de alarme, que depois se verificava serem infundadas. Não admira. A latente tenção nervosa, devida à frequente vivência de momentos de grande perigosidade e agravada pelo silêncio da noite, podia explodir face a um inesperado ruído provocado por um qualquer animal selvagem, possivelmente atraído pelo cheiro lançado no ar pelos restos de comida. Mesmo que fossem insignificantes.
Lembro-me de uma vez em que, face ao tiroteio verificado e cujo ruído de noite parece ter realmente uma maior dimensão, toda a gente se levantou e, com armas e munições, correu estremunhada para as posições de defesa. Em situações do género, até se vêm e sentem coisas inexistentes que a nossa imaginação, em estado de grande excitação, nos apresenta como reais.
     De outra vez, integrado numa coluna militar com certa extensão e que hoje já não consigo identificar, na estrada que leva ao Quitexe mas ainda bastante perto de Aldeia Viçosa, numa curva bastante pronunciada em local de densa vegetação, um soldado que viajava na viatura da frente também disparou inadvertidamente a arma. Tal disparo foi o suficiente para que toda a gente aos tiros saltasse das viaturas. Enquanto alguns militares, abrigados nas valetas guardavam os veículos, outros lançaram-se pelo mato no encalço de possíveis guerrilheiros.
     Com toda aquela confusão, os militares da frente já disparavam forte e feio contra os da retaguarda e vice-versa. Até que alguém responsável descobriu o logro e mandou parar o fogo. Felizmente ninguém se feriu. Mas poder-se-iam ter registado consequências muito graves.
Recordo-me que, com a pressa de me abrigar também na valeta, coloquei a alavanca de velocidades em ponto morto e imobilizei o Jeep com o travão de pé, mas com a atrapalhação esqueci-me de acto contínuo accionar o travão de mão. Quando, já estendido na valeta, verifiquei de relance que o Jeep, dado que a estrada naquele sítio era descer, já estava a deslizar e a ganhar embalagem com o risco de se despistar, levantei-me de imediato e, correndo, consegui alcançá-lo e imobilizá-lo efectivamente. Enfim, coisas da breca.
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Arlindo de Sousa
publicado por Quimbanze às 21:39

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