Quinta-feira, 11 de Setembro de 2008

Recordações do Quitexe 61/63 por Arlindo de Sousa - Parte VI

 

Em meados de Setembro de 1961, acompanhando o 1.º Cabo de Cipaios Paulino e o Chefe de Posto António Augusto Ribeiro França, fui para Aldeia Viçosa. Fizemos o percurso entre a actual Ndalatando e Aldeia Viçosa, sem qualquer protecção militar, passando por Lucala, Samba Caju, Camabatela, Companhia Agrícola do Pumbassai e Entre Rios (uma dependência da Pumbassai).
Antes de chegarmos ao destino, quando já circulávamos na estrada Quitexe – Aldeia Viçosa, o Chefe França, que conduzia o Jeep Willis em que nos transportávamos, foi-me mostrando os vestígios ainda muito visíveis dos dias mais difíceis que se seguiram ao fatídico dia 15 de Março de 1961: as valas abertas pelos revoltosos só tinham sido aterradas o suficiente para permitirem uma passagem apressada das viaturas; e as árvores derrubadas, ou os troncos em que devido ao seu gigantesco porte tinha sido necessário serrá-las, ladeavam nos pontos mais críticos a estrada.
Chegados a Aldeia Viçosa, sem qualquer problema, verifiquei que a povoação estava ocupada por um pelotão da Companhia de Caçadores 89 e havia uma meia dúzia de civis. Mas as casas (o aglomerado não tinha mais que umas sete ou oito habitações) encontravam-se completamente destruídas. Segundo então me foi informado, numa fase inicial os revoltosos não destruíram nada. Estavam convencidos de que os proprietários não voltavam mais e que, portanto, poderiam dividi-las entre si, assim como os respectivos pertences.
A completa destruição só teria acontecido quando os sublevados, face à reacção militar e ao elevado ânimo de muitos dos proprietários, verificaram que afinal a partida não estava ganha. A aviação, por sua vez, ao sobrevoar o local, pensando que havia gente nativa dentro do que restava das casas, completou o quadro de total devastação.
A destruição era de tal ordem, que eu e o Chefe de Posto instalámo-nos num espaço que não era mais do que um sítio, circunscrito pelas paredes de uma antiga casa de banho, tosca e provisoriamente coberto com chapas de zinco. Situação idêntica era a dos poucos civis e dos militares que ali encontrámos. Como equipamento, para além das armas, dos víveres e de algum material de expediente, tínhamos uma máquina de escrever e um transreceptor P19 do tempo da 2.ª Guerra Mundial.
As sequelas das chacinas e das destruições verificadas em 15 de Março de 1961, e nas semanas que se seguiram, estavam ainda bem vivas em toda a parte. Mas, apesar disso e na generalidade, toda a gente trabalhava corajosa e abnegadamente para que a vida na região retomasse a normalidade.
Tudo era feito para se conseguir recriar um clima de paz e trabalho que beneficiasse toda a população, independentemente da sua cor, credo ou função social: junto de Aldeia Viçosa, as fazendas Alice e Cassequel já estavam a ser de novo agricultadas e ocupadas por trabalhadores bailundos; em relação a outras fazendas, vislumbravam-se já projectos de reocupação; e Aldeia Viçosa, embora ainda cambaleante e com grandes dificuldades, começava a recuperar do vendaval destruidor que quase a aniquilou totalmente.
Nós próprios, os representantes da autoridade administrativa, dávamos o exemplo: recolhíamos chapas de zinco abandonadas, tapávamos os furos com um ferro de soldar e aproveitávamo-las para melhorar as instalações. Todos trabalhavam para que a vida retomasse o curso normal. Começando por privilegiar o sector económico. Alimentávamos a ideia de que com a riqueza, viria a segurança e uma nova fase de progresso para todos.
O esforço de recuperação foi obra de todos: trabalhadores, proprietários, militares e funcionários administrativos. Mas em todas as situações aparece sempre uma ovelha ranhosa. Certo dia encontrei um tambor de petróleo de 200 litros, provavelmente escondido pelos sublevados nos momentos mais difíceis. Fi-lo transportar para a povoação com a finalidade de ficar à disposição de toda a gente. Pois, sem que inicialmente me tivesse apercebido, houve um sujeito que disfarçada e abusivamente se apossou dele.
O atrevimento saltou à luz, quando alguns militares, precisando de petróleo para limpar as armas, se lhe dirigiram para o obter. O dito cavalheiro teve a desfaçatez de cobrar dinheiro aos militares pelo petróleo cedido. Militares que ali estavam a arriscar heroicamente a vida por uma causa genericamente tida por justa.
Assim que soube do sucedido, alertado pelos militares lesados, não estive com meias medidas. Levei-os de imediato à presença do pouco escrupuloso sujeito e obriguei-o a devolver-lhes as importâncias indevidamente cobradas. Será que algum dos ex-militares da Companhia de Caçadores 89, protagonistas deste episódio, ainda se lembra do caso? Afinal, tal como sucede com um oceano composto por um número incalculável de gotas de água, a história também se constrói com estes pequenos nadas.
 
Arlindo de Sousa
publicado por Quimbanze às 21:42

link do post | comentar | favorito
|

.OUTRAS PÁGINAS

.posts recentes

. Batalhão de Caçadores 3 e...

. Município de Quitexe nece...

. O Nosso Bondoso Director

. Associação da União dos N...

. Governador do Uíge emposs...

. Plano Urbanístico do Quit...

. Fotografias do Quitexe - ...

. 15 de Março - "Perderam-n...

. Comentário de Victor Roma...

. Quitexe: Aumenta índice d...

.FOTOS

.MAIS FOTOS

.arquivos

. Junho 2017

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Novembro 2014

. Março 2014

. Janeiro 2014

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Janeiro 2013

. Setembro 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

.mais sobre mim

.Junho 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.pesquisar

 

.VISITAS

.ONDE ESTÃO

.No Mundo

.subscrever feeds