Terça-feira, 9 de Setembro de 2008

Quando uma carta é uma referência histórica - por Arlindo de Sousa

 

Sobre a História do Quitexe, partilho, agora, um apontamento que acho curioso e pode eventualmente funcionar como um pequeno contributo para a História desta vila angolana.
Por razões matrimoniais, tenho parentes em Armamar. Os meus familiares daquela localidade tiveram um primo (já falecido) que, depois de ter frequentado o curso de Direito na Universidade de Coimbra, emigrou para Angola, então colónia portuguesa.
Em Angola (década de 1920?), ingressou no Quadro Administrativo. Entre os sítios onde esteve colocado, conta-se o Quitexe. Lugar onde curiosamente eu também trabalhei como funcionário administrativo cerca de trinta anos depois.
No meio da papelada antiga da família, existe a seguinte carta enviada do Quitexe, datada de 18 de Maio de 1930.
 
"Quitexe – 18-5-1930
 
Caro Quim
 
Mais uma vez poz em evidencia a amizade que nos liga, da qual eu nunca duvidei.
Já deve saber por meu tio que fui colocado como Secretario de Circunscrição, logar este dos mais decentes de Angola e que dá para se viver decentemente.
Tem muitos espinhos, pois calcule que tenho de fazer de escrivão, oficial do registo civil, notario, chefe de posto e secretario da Comissão Municipal.
Para quem nunca lidou com processos, nem com toda esta trapalhada, vejo-me à vara, mas felizmente vou singrando.
Agradeço-lhe o ter lembrado o meu nome a esse cavalheiro que já cá está como Director das Alfandegas, pois é meu desejo conseguir ser nomeado para lá, porque é dos logares que aqui dão mais dinheiro.
Então por aí tudo ma mesma?
Faço votos para que seja feliz no exame.
Com respeito à sua vinda para aqui dou-lhe de conselho o seguinte, apezar da minha pouca pratica d'Africa. Se conseguir aí um logar fique por aí, pois Africa não é o que se julga; se por acaso, tiver de sahir de Portugal e queira vir para aqui pode vir sem receio, pois consegue aqui ganhar muito dinheiro.
No entanto aproveite o meu 1.º conselho.
Mais uma vez os meus agradecimentos, pela sua lembrança.
Um abraço do seu amigo certo sempre ao seu dispor.
 
Manuel Gomes dos Santos
 
Direcção   Circunscrição Civil do Encoje – Quitexe
Cuanza Norte."
    
A respeito da carta acima transcrita, mantive a grafia então em uso. O signatário era natural de Goujoim, onde segundo me informaram está sepultado. Foi dirigida a um antigo condiscípulo dos tempos de Coimbra chamado Joaquim Silveira, que, tendo concluído o Curso de Direito, fez carreira na magistratura.
Julgo que o conteúdo da carta em foco é interessante, pelos seguintes motivos:
 
1 – Dá-nos uma ideia bastante clara da consideração social de que gozava um Secretário de Circunscrição e da dimensão da auto-estima resultante do exercício do cargo.
 
2 – Um Secretário de Circunscrição desempenhava diversas funções e da carta transparece uma quase completa ausência de formação profissional, que eu próprio constatei cerca de três décadas mais tarde. Talvez com excepção dos funcionários administrativos formados pelo antigo Instituto Superior de Estudos Ultramarinos, na maioria esmagadora dos casos ia-se aprendendo com a prática.
 
3 – A chamada cunha era uma instituição e era através dela que muitas vezes se conseguiam os empregos susceptíveis de darem mais dinheiro. Como pelos vistos acontecia com os tão cobiçados cargos desempenhados nas Alfândegas.
 
4 – Se um sujeito tivesse habilitações de certo nível, e em Portugal andasse às aranhas, em África encontrava emprego garantido e bem remunerado.
 
5 – Sob o ponto de vista da História do Quitexe, se tivermos em conta que as primeiras casas de comerciantes europeus naquela vila só se consolidam na década de 1940, inferimos: que o sítio designado de Quitexe teria sido escolhido para a edificação da sede da Circunscrição do Encoge, antes de ali haver qualquer comerciante instalado, por se considerar que a localização geográfica reunia excelentes condições para ser um centro administrativo; e possuía igualmente excelentes condições para, no futuro, nele se fundar uma povoação, a qual, assim que começaram a surgir as primeiras casas comerciais, tomou logo o nome do sítio – Quitexe.
 
6 – Ainda no que concerne à História do Quitexe, baseando-nos no conteúdo da carta acima transcrita, deduzimos também que, em data imediatamente posterior a 1930 que não sabemos precisar, aquela área foi seguramente alvo de uma reorganização administrativa, em consequência da qual a povoação do Quitexe deixou de ser a sede da Circunscrição Civil do Encoge por aquela Circunscrição ter sido extinta.
 
7 – O Quitexe teria assim sido logicamente transformado em sede do posto administrativo do mesmo nome, sob a alçada do Concelho de Ambaca em Camabatela, distrito do Quanza Norte, baixando de categoria.
 
8 – Na sequência dos acontecimentos de 15 de Março de 1961, uma nova reorganização administrativa fez o Quitexe recuperar a antigo estatuto perdido (de cabeça de circunscrição), transformando-o em sede da Administração do Concelho do Dange, então criada. E sob a sua dependência, para além do posto – sede, ficaram os postos administrativos de Aldeia Viçosa e Vista Alegre, então também criados, e o Posto Administrativo de Cambama destacado do Concelho de Quibaxe.
 
9 – Pouco tempo depois (21 de Julho de 1962), verificou-se novo reajustamento administrativo, em resultado do qual o Concelho do Dange foi separado do Distrito do Quanza Norte, de cuja capital o Quitexe dista 300 Km, e passou a pertencer ao distrito do Uíge, cuja capital está apenas a 40 Km de distância.  
Houve cerimónia oficial no Quitexe. Para além de muitas outras pessoas, estiveram presentes os Governadores de ambos os distritos respectivamente Major Silva Sebastião e Major Rebocho Vaz, o Comandante Militar do Quitexe (não sei o nome) e o Dr. Pinto Assoreira. Tenho fotos. Na ocasião foram "Louvados por Sexa. Gov. Dist. Q. N." o Secretário da Administração do Quitexe Políbio Fernando Amaro Valente de Almeida e os Chefes de Posto António Augusto Ribeiro França (Aldeia Viçosa) e Guedes Vaz (Vista Alegre).  
 
 
 
Como se constata, a carta data de 18 de Maio de 1930 que o Secretário da Circunscrição do Encoge – Quitexe, Angola, Manuel Gomes dos Santos, enviou então ao seu antigo condiscípulo de Direito, Joaquim Silveira, magistrado colocado algures numa comarca do Norte de Portugal, contem preciosas informações, que bem podem representar um pequeno, todavia útil, contributo para a História do Quitexe.
 
Em jeito de conclusão, creio que podemos registar que o sítio do Encoge propriamente dito (uma espécie de Nambuangongo dos finais do século XIX e inícios do século XX), dado o seu valor estratégico, constituiu-se em centro do poder militar. Visto que quem o ocupasse militarmente dominava a região.
A partir do Engoge primeiro teriam dominado os Dembos acaudilhados pelo dembo Quitexe. Derrotado o dembo Quitexe pelas armas lusas, a partir do Encoge passaram a dominar militarmente os portugueses.
A seguir à vitória militar, ter-se-ia imposto a necessidade de pacificar e organizar o poder civil, para cujo centro foi escolhido um sítio (com grandes possibilidades futuras) que, certamente em honra do valor guerreiro do chefe dembo vencido e avassalado, foi denominado de Quitexe. Passámos assim a ter a "Circunscrição Civil do Encoje – Quitexe (distrito do) Cuanza Norte". A partir daqui, segue a inferência que o amigo João Garcia já conhece.
Um pouco à semelhança do que a seguir a 1961 se passou com Nambuangongo, o interesse estratégico do Encoge não era apenas militar, era também espiritual, era o significado, porventura de invencibilidade, que lhe estava associado. A sua ocupação teria representado um ponto de viragem (sem retorno), a que se seguiu a organização do poder civil e talvez uma pacificação com aspectos a fazer lembrar a acção psicossocial que, depois de ultrapassados os momentos mais traumáticos depois de 1961, foi implementada com sucesso em todo o Norte de Angola.
 
 
Arlindo de Sousa

 

 

publicado por Quimbanze às 22:06

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