Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008

Joaquim Pinto de Andrade e Gentil Viana, dois dirigentes históricos do MPLA

Joaquim Pinto de Andrade e Gentil Viana, dois dirigentes históricos do MPLA, morreram este sábado. O primeiro em Luanda e o segundo em Lisboa, onde residia há vários anos

 

Faleceu no sábado, na sua residência do Bairro Azul, em Luanda, onde se encontrava há dias em coma, devido a doença prolongada, o antigo sacerdote angolano Joaquim Pinto de Andrade, que nascera em 1926 e fora um dos fundadores do MPLA, tendo sido por várias vezes detido a partir de 1960.

Formado em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, no ano de 1953, Joaquim Pinto de Andrade, que era irmão de Mário Pinto de Andrade, também fundador do MPLA, participou em 1956 no I Congresso dos Homens de Cultura Negra, realizado em Paris. O padre Joaquim Pinto de Andrade era uma personalidade de grande relevo na sociedade angolana nos anos 50. Nas suas homilias na Sé de Luanda, que eram ansiosamente frequentadas, ele abordava os problemas sociais, económicos e, de uma maneira velada, alguns aspectos políticos denunciando as situações de injustiça gritantes geradas pelo colonialismo.

Foi um dos promotores da campanha de apoio aos presos políticos e suas famílias, a qual contara com o suporte discreto do arcebispo D. Moisés Alves de Pinho e de Monsenhor Manuel das Neves, até à sua prisão. Foi preso em Junho de 1960, juntamente com grande parte do clero angolano com simpatias nacionalistas: Padres Alexandre do Nascimento, Martinho Samba, reverendo Vigário da Vara, Vicente José Rafael, Lino Guimarães e Alfredo Gaspar. Teriam sido denunciados à Pide pelo padre português António G. X.

Depois de preso, foi enviado primeiro para o Aljube em Lisboa, depois para a ilha do Príncipe e, mais tarde, para o Norte de Portugal, para um mosteiro onde, estes padres acusados de pertencerem ao MPLA, ficaram em prisão domiciliária.

Viria a abandonar o sacerdócio católico, para se casar com Vitória Almeida e Sousa, médica pediatra; tiveram dois filhos.

 Presidente honorário do MPLA em 1962, a partir de 1974 fez parte do grupo Revolta Activa, contrário à política oficial do partido que em 11 de Novembro desse ano assumiu a governação.

Mantendo-se, até há pouco tempo, activo na política angolana esteve ligado ao "fugaz" Partido Reformador Democrático (PRD), que obteve um resultado pouco expressivo nas eleições de 1992.

Foi durante umas férias em Portugal, em meados dos anos 90, que adoeceu com gravidade, tendo desde então passado longos períodos hospitalizado.

 

Igual modo devido a doença prolongada, faleceu  no Hospital da Luz, em Lisboa, onde residia há mais de três décadas, outra das figuras da luta pela independência de Angola: Gentil Ferreira Viana, 72 anos

Os dois "históricos" hoje falecidos estiveram entre os impulsionadores da tendência política Revolta Activa, no seio do MPLA, em que participaram também o irmão de Joaquim Pinto de Andrade, Mário - primeiro presidente do MPLA -, Carlos "Liceu" Vieira Dias, Maria do Céu Carmo Reis e outros intelectuais angolanos.

 

Esta tendência contestatária da liderança de Agostinho Neto procurava afirmar-se como "independente, plural, não engajada com nenhum dos blocos" em disputa em Angola no pós independência

Com a Revolta Activa afirmava-se então no MPLA a "Revolta de Leste", liderada por Daniel Chipenda, além do grupo leal a Neto. Em 1975, juntamente com muitos outros intelectuais do MPLA, Gentil Viana é preso e só dois anos depois conseguiria a liberdade.

Numa luta na prisão foi ferido com gravidade num olho, tendo ficado praticamente cego de uma vista.
Para a sua libertação terá  intercedido  pessoalmente o general Tito, o líder da então Jugoslávia, país que o acolheu logo após a saída da prisão.

 

Questionado sobre o seu destino de eleição, Viana acaba por se decidir por Portugal, onde se tinha licenciado em Direito nos anos 60, e mais tarde fugido - com outros intelectuais como o moçambicano Joaquim Chissano e o escritor Pepetela - para iniciar um longo périplo que o levaria a Paris, Gana, Congo Brazzaville, Argélia, China, e mais tarde para a guerrilha em Angola.

 

Divorciado de uma professora universitária moçambicana residente em Portugal, Gentil Ferreira Viana foi pai de cinco filhos, dois dos quais já falecidos e os outros três residentes em Angola.

 

Neto de um português, Viana voltou a Angola por duas vezes, depois de se estabelecer em Lisboa em 1977 - a primeira logo após os Acordos de Bicesse (1991) e a última há poucos anos.

 

"Era um conciliador, um homem marcante para quem o conheceu bem. É preciso saber honrar este homem que foi precursor do que há de mais profundo na política. Era respeitado por todas as sensibilidades, um grande amigo de Portugal e dos portugueses", afirma  Vítor Ramalho, seu amigo.

 

O corpo de Gentil Viana ficou em câmara ardente na Casa de Angola, em Lisboa, a partir das 16:00 de domingo. Na segunda-feira, o féretro segue para Luanda, cidade natal do político angolano, onde será sepultado.
A vida de Gentil Viana cruzou-se, em vários momentos, com a de Joaquim Pinto de Andrade.

 

O seu pai - Frederico Viana, filho de um português - e Pinto de Andrade "pai" foram ambos fundadores da Liga Nacional Africana, movimento político que nos anos 40 e 50 se afirmou como impulsionador da identidade africana nas então colónias.

 

 Texto elaborado a partir de "Génese do Nacionalismo Moderno Angolano" - Edmundo Rocha e artigos da "Lusa"

publicado por Quimbanze às 23:50

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9 comentários:
De Angelino kobe Viana a 17 de Março de 2014 às 19:33
Entristece
Mês e próprio
E com estas história que nos dá novo geração
Devemos beber
....
Mês esto com vosco dentro do meu coração
Gentil Ferreira Viana
Joaquim Pinto de Andrade
Ass: kobe Viana ...
De OSCAR a 14 de Março de 2016 às 09:11
Depois do falecimento do último Fundador vivo do MPLA e da GERAÇÃO dos fundadores de CONACRY Lucio Lara só resta a viúva do fundador Dr. Hugo José Azancot de Menezes com o cartão Nº5 DO MPLA também fundadora do primeiro núcleo da OMA TAMBÉM EM conacry com 83 anos chamada MARIA DE LA SALETE GUERRA DE MENEZES.
De Miguel a 31 de Maio de 2013 às 23:44
Que a vossa alma descansa em paz.
De black mamba a 5 de Março de 2013 às 23:48
onten os herois lutaram pela independeçia de África, hoje os presidentes só olham nas suas familias, que se lixe o povo...
De black mamba a 5 de Março de 2013 às 23:45
onten os herois lutaram pela independeçia de África, hoje os presidentes só olham nas suas familias, que se lixe o povo...
De Anónimo a 5 de Março de 2013 às 23:43
onten os herois lutaram pela independeçia de África, hoje os presidentes só olham nas suas familias, que se lixe o povo...
De Dixon Moma a 26 de Setembro de 2012 às 12:10
Neste dia em que se empossa o presidente da república de Angola, gostaria muito que ainda estivessem vivos, a fim de poder conversar com estes mais velhos fundadores do MPLA, poder obter o Vosso ponto de vista sobre o estado actual da Nação, poder saber se já era progragama do partido ter dirigente ambiciosos no poder, corruptos, em fim...

Lamento não ter podido conhece-los pessoalmente, mas, embora jovem, doi-me, porque sinto que os objectivos do MPLA, o meu partido foram deturpados...

QUE A VOSSA ALMA DESCANCE EM PAZ!!!
De Dixon Moma a 26 de Setembro de 2012 às 12:00
Neste dia em que se empossa o presidente da república de Angola, gostaria muito que ainda estivessem vivos, a fim de poder conversar com estes mais velhos fundadores do MPLA, poder obter o Vosso ponto de vista sobre o estado actual da Nação, poder saber se já era progragama do partido ter dirigente ambiciosos no poder, corruptos, em fim...

Lamento não ter podido conhece-los pessoalmente, mas, embora jovem, doi-me, porque sinto que os objectivos do MPLA, o meu partido foram deturpados...

QUE A VOSSA ALMA DESCANCE EM PAZ!!!
De JOÃO SANTOS a 10 de Agosto de 2011 às 19:33
Seria uma prova de maturidade politica e de reconhecimento da verdadeira identidade patriótica e de respeito pelo contributo dados pelos fundadores do mpla de Conacry se os seus familiares começassem a exofruir de apoios dignos de reconhecimento.

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