Domingo, 4 de Junho de 2017

Batalhão de Caçadores 3 e o segundo ataque da UPA ao Quitexe

Recebemos de Serafim Paulo Vaz de Sousa e Silva, comandante do 2º pelotão da 1ª Companhia do Batalhão de Caçadores 3 instalada em 1960 em Carmona - Uíje, a crónica em que nos relata a sua vivência do dia 15 de março de 61, em pleno patrulhamento entre Santa Cruz e Sanza Pombo. Seguir-se-ão outras crónicas onde, numa, descreve o segundo ataque da UPA ao Quitexe em 11 de abril de 61, salientando o perigo a que se expôs o meu pai, João Nogueira Garcia, num episódio também descrito por ele no livro Quitexe 61 - Uma Tragédia Anunciada e, noutra, onde desmonta o "heroísmo" do Chefe do Posto Administrativo do MUCABA e como foi criado o mito dos "heróis de Mucaba".

 

A instalação do BC3 em Carmona foi oficializada em 22JUN1960, tendo sido nesta data condignamente apresentado à população uígense através do desfile da sua 1.ª COMPANHIA pela Avenida principal da Cidade.

Foram os seguintes os Oficiais que inicialmente, em Junho de 1960, integraram o BATALHÃO DE CAÇADORES 3 :

 

COMANDO – CARMONA

 

COMANDANTE                                                         MAJ SALVADOR DE JESUS ABREU

OFICIAL DE OPERAÇÕES                                         CAP PEREIRA DA SILVA

CHEFE DA SECRETARIA                                          TEN LIBERTO BRANCO

CHEFE DA CONTABILIDADE                                   ALF JORGE NARCISO

TESOUREIRO                                                             ALF FERREIRA

CHEFE DO SERVIÇO DE MATERIAL                       TEN ISAAC LIMA DE AZEVEDO

MÉDICO                                                                     TEN JOSÉ DIAS ALVES

 

             1.ª COMPANHIA – CARMONA   ( ORIGINÁRIA DO RINL )

 

COMANDANTE                                                       CAP BOTELHO

1.º PELOTÃO                                                             TEN SIMÕES DIAS

2.º PELOTÃO                                                             ALF SOUSA E SILVA

3.º PELOTÃO                                                             ALF MANUEL LINHARES

4.º PELOTÃO                                                             ASP HENRIQUE ABREU

 

As outras Companhias que pertenciam ao BC3 eram as seguintes:

 

2.ª COMPANHIA DE CAÇADORES ESPECIAIS – TOTO ( ORIGINÁRIA DA METRÓPOLE )

COMANDANTE                                           CAP ACÁCIO SEIA RAMOS

 

3.ª COMPANHIA CAÇADORES – MAQUELA DO ZOMBO   ( ORIGINÁRIA DO RIL )

COMANDANTE                                           CAP BARROS BASTOS

 

Também mais ou menos nesta mesma altura foi determinada a criação de um Aeródromo Militar no Norte de Angola, que acabou por ser instalado no NEGAGE com a denominação de AB3, sob o Comando do TEN COR AUGUSTO SOARES DE MOURA e de onde vieram a operar os aviões AUSTER, DORNIER e HARVARD T-6.

 

A inauguração do AB3, à qual compareci como representante do BC3, verificou-se a 07FEV1961 com a presença do TEN COR MAGRO ROMÃO, CHEFE DO ESTADO MAIOR DA REGIÃO AÉREA DE ANGOLA.

No quadro da Missão que em 1960 foi atribuída à 1.ª COMP / BC3 tornaram-se especialmente importantes as acções desenvolvidas no convívio e na aproximação às populações civis, procurando elevar o espírito de segurança então existente, muito abalado pelos acontecimentos que se desenrolavam no CONGO EX-BELGA

Sendo que essas acções constituíam o objectivo principal das constantes missões de patrulhamento levadas a cabo logo a partir de JUN60 até 15MAR61, a verdade é que também procurávamos recolher informações junto dos fazendeiros e das populações nativas, bem como das próprias Autoridades Administrativas das regiões visitadas, informações essas depois incluídas no respectivo RELATÓRIO DE PATRULHAMENTO, a ser enviado para o QUARTEL GENERAL, com cópia para o GOVERNO GERAL DE ANGOLA.

 

Lembro-me ainda que àqueles Relatórios eram sempre apensos uns “ traços “ que tinham a pretensão de ser considerados como MAPAS DE ITINERÁRIOS e onde nós procurávamos assinalar os pontos críticos quanto a segurança de trânsito, bem como a localização das Sanzalas mais populosas existentes e mais próximas das margens das “ picadas “ que fomos percorrendo ao longo dos seguintes itinerários:

 

1.º ITINERÁRIO

CARMONA – SONGO – NOVA CAIPEMBA – LUCUNGA – MARGENS DO RIO LUCUNGA – PARALELO 38

 

2.º ITINERÁRIO

CARMONA – QUITEXE – ALDEIA VIÇOSA – FAZENDA LIBERATO – ENCOGE – ZALALA – VALE DO LOGE

 

3.º ITINERÁRIO

CARMONA – NEGAGE – BUNGO – 31 DE JANEIRO – LÊMBOA – MUCABA – DAMBA- QUIBOCOLO - CAMATAMBO

 

4.º ITINERÁRIO

CARMONA – NEGAGE – PURI – CAIONGO – CANGOLA – SANZA POMBO – CUILO POMBO - MACOCOLA – QUIMBELE – ICOCA – CUANGO - SANTA CRUZ – MACOLO – MASSAU - UAMBA

      

Os patrulhamentos efectuados nos já caquéticos “ WILLIS “ ou nos ainda menos maus “ UNIMOG “ de acordo com aqueles itinerários, estendiam-se normalmente por um período entre os cinco e os nove dias, sendo que o 4.º Itinerário era o mais demorado e o de maior quilometragem, tendo sido este o último efectuado pelos Militares da 1.ª COMP do BC3, na misssão de patrulhamento iniciada em 10MAR61, efectuada sob o meu comando.

Lembro-me bem desse último patrulhamento e das condições em que todo ele foi efectuado, quer por nesse período, no dia 15, ter eclodido o terrorismo, quer ainda porque no dia 16 completava os meus 22 anos…

Recordo claramente que no dia 15MAR61, depois de termos pernoitado em SANTA CRUZ, na casa do respectivo ADMINISTRADOR, TORCATO SALVADO, que também nos ofereceu o jantar, bem logo de manhãzinha termos partido em direcção a MASSAU e MACOCOLO, iniciando assim o regresso a CARMONA.

Nesta etapa de regresso tinhamos previsto a primeira escala para a povoação de SANZA POMBO, onde desde sempre tivemos alojamento garantido em casa do nosso bom Amigo CORDEIRO, Gerente da Casa Comercial da RIMAGA, Empresa pertencente a RICARDO MATOS GASPAR, um dos PIONEIROS DO UÍGE, que desde

a primeira hora fez questão de nos disponibilizar instalações para pernoita do pessoal das patrulhas em qualquer das Fazendas ou Casas comerciais que possuia espalhadas por toda a região, onde igualmente nos garantia alimentação.

 

Chegámos muito cansados a SANZA POMBO, já altas horas da madrugada do dia 16MAR, depois de uma viagem muito atribulada através de picadas intransitáveis, com pontes improvisadas, o que nos obrigou a que muitas vezes tivéssemos de desatolar os jeeps à força de ombros.

Lá acordei, claro, e o Administrador começou então a contar-me que tinha tomado conhecimento através das comunicações com a sede do Governo do Distrito, em Carmona, que as populações nativas se tinham amotinado e se haviam verificado ataques a algumas Fazendas da região, com existência de muitos mortos e feridos, verdadeiras chacinas.

Embora naquela ocasião não tivesse a mínima noção da gravidade da situação, claro que também eu fiquei preocupado, até porque não tinha quaisquer meios de comunicação directa quer com o Comando da Companhia, quer com o Comando do Batalhão, mas, depois de diversas tentativas com o P-19 da Administração do Concelho e com a boa colaboração do Administrador, lá consegui contactar com o Comandante do Batalhão, MAJOR SALVADOR DE JESUS ABREU.

Depois de me informar muito laconicamente sobre o que havia acontecido, talvez em função do muito pouco que, naquele momento, ele próprio conheceria sobre tudo que estava acontecendo, foi-me ordenado que prosseguisse a minha missão de patrulhamento e que, se tivesse de actuar, que actuasse com toda a força!

QUE ACTUASSE COM TODA A FORÇA!

Só mesmo a brincar!...

 

Com efeito, considerando que o grupo sob o meu comando era constituído apenas por seis militares:

- Comandante, eu próprio, com Pistola Metralhadora FBP e Pistola

PARABELLUM, respectivamente com 90 e 16 munições

- Um 1.º Cabo Miliciano, com uma Pistola Metalhadora FBP com 90 munições

- Um 1.º Cabo Mecânico, com uma Espingarda MAUSER e 20 munições

- Um Soldado Condutor Auto, com uma Espingarda MAUSER e 20 munições

- Dois Soldados, cada um com uma Espingarda MAUSER e 20 munições,

com que FORÇA poderíamos então nós actuar se porventura viéssemos a ter algum confronto com quaisquer elementos rebeldes existentes entre a numerosa população das muitas Sanzalas que proliferavam ao longo do itinerário que ainda faltava percorrer até Carmona?!...

Como é natural, o ADMINISTRADOR AMZALAC procurou por todos os meios ao seu alcance que eu e os Militares que me acompanhavam não abandonássemos SANZA POMBO de modo a que, com a colaboração da população civil, a defesa da povoação fosse garantida, mas não conseguiu ver satisfeitos os pedidos dirigidos quer ao Governador do Distrito, MAJ. REBOCHO VAZ, quer ao próprio Comandante do BC 3, MAJ. SALVADOR DE JESUS ABREU.

Assim, depois de uma reunião havida com o ADMINISTRADOR AMZALAC e os seus colaboradores mais próximos na qual se procurou estabelecer um Plano de Defesa da povoação, partimos a meio da tarde em direcção a Carmona.

Ao longo desta última etapa do patrulhamento, teríamos de passar pelo PURI, uma pequena povoação sede de Posto Administrativo, cujos habitantes naturalmente viviam já uma grande inquietação face à gravidade dos acontecimentos ocorridos.

Procurei animar o Chefe de Posto, informando-o sobre o que tinha observado nas Sanzalas entre as povoações do PURI e de SANZA POMBO, por onde passei sem qualquer manifestação hostil e que se encontravam mesmo absolutamente calmas, embora aparentemente com menos gente em relação ao que tinha observado nas minhas anteriores passagens por elas.

Antes de seguir em direcção ao NEGAGE, resolvi verificar a situação existente em CAIONDO e CANGOLA, as povoações mais próximas do PURI, em companhia do Chefe de Posto, que ficou com uma atitude um pouco mais serena e confiante, pois nada de anormal se encontrou.

A ausência de quaisquer acções terroristas pelas populações nativas desta região, entre o NEGAGE – PURI – SANZA POMBO, manteve-se e só bastante mais tarde tiveram lugar os primeiros incidentes, estando já os respectivos habitantes muito melhor preparados para os enfrentar com êxito.

Chegado ao NEGAGE, como sempre fazia quando por lá passava, fui até à Messe da FORÇA AÉREA, onde tomei conhecimento mais detalhado, e também mais fidedigno, sobre o que realmente tinha acontecido, com especial incidência na região do UÍGE confinante com a região dos DEMBOS.

Aí fui encontrar o TEN COR ALBERTY CORREIA que, segundo julgo, chefiava uma qualquer Missão enviada de LISBOA e que ficou admirado com a “ dimensão “ do meu grupo e o tipo de armamento de que dispunha, quase impondo que fossemos escoltados no regresso a CARMONA por uma força constituída por Militares do NEGAGE, como se, naquela altura, ali os houvesse em grande número!...

Partimos mais tarde para os últimos 40 quilómetros de patrulhamento e chegámos a CARMONA cerca das 01H30 de 16MAR61, como seria de esperar sem ocorrência de quaisquer incidentes.

 

publicado por Quimbanze às 19:38

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