Terça-feira, 30 de Outubro de 2007

Histórias na tragédia

Hoje, depois de assistir ao programa sobre a Guerra Colonial não podia deixar de prestar  homenagem  ao meu Pai. Só um grande homem, envolvido naquela imensa tragédia, poderia dizer não à barbárie, não à vingança e não se deixar submeter pelos instintos mais primários que reduziu os intervenientes desta guerra à categoria de bestas humanas desprezíveis.

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É dele o texto que se segue:

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Reconhecimento

Corre o mês de Abril de 61 no Quitexe. O tractor, que eu havia emprestado para os trabalhos de abertura da pista para as avionetas, continua ao serviço da Administração. Mas, entretanto, alguém me vem informar que o pretendem utilizar na abertura de valas para enterrarem os pretos que vão sendo mortos na repressão cega, desenfreada e absurda da revolta. Faço-me ouvir:

- Quem os mata que lhes abra a cova! Com o meu tractor, não!

Retiro a máquina e guardo a chave. Ninguém se atreveu a questionar-me.

Os corpos dos negros são atirados da ponte ao rio Luquixe. Às vezes ainda moribundos, agarram-se aos ramos das árvores que bordejam o rio e assim se vão esvaindo até que a morte e a corrente os transportem rio abaixo.

A indisciplina, que entretanto reina entre os brancos, causa alguma apreensão às autoridades.

Neste ambiente, sem calor humano, os sentimentos são confusos. Não há mulheres, nem o sorriso ou o choro de uma criança. À noite matilhas de cães famintos, abandonados pelos seus donos cercam o Quitexe, uivando sem parar, pressagiando a desgraça e a morte. Os nervos sempre à flor da pele, o vinho, a cerveja e os instintos mais primários de cada um vão tomando conta do dia a dia do Quitexe. A vida humana, para alguns, tem apenas o valor do custo de uma bala, 7$50. Triste imagem de gente "civilizada". Estes são, afinal, os valores morais emergentes da filosofia da guerra.

É neste estado de alma que de 15 em 15 ou até de 8 em 8 dias se faz a rendição do comando militar do Quitexe. Após a saída do Tenente Simões Dias o comando passou a ser exercido por alferes milicianos. Fui cumprimentar o novo comandante, um jovem alferes. Tem uma postura mais militar e vem acompanhado de um sargento de enorme estatura e com um farfalhudo bigode (dos antigos, com pontas retorcidas).

Só passados uns três dias volto a encontrar o Alferes Coimbra, no terraço do bar do Pacheco; eu aguardo, sentado a uma mesa, a hora do jantar. Dentro do bar reinava a confusão. Espíritos exaltados, com ameaças no ar tornavam o ambiente e o convívio desagradável. Eu tentava manter-me, o mais possível, afastado dessas confusões. O alferes e o sargento, cada um com uma metralhadora ligeira FBP na mão, vêm ao meu encontro. Fiquei assustado pois eles vinham com caras de poucos amigos. O Alferes Coimbra vem dizer-me que precisava mudar a valvulina e o óleo nos carros e queria saber se eu os tinha em armazém. Respondi-lhe que sim, nem era preciso ir confirmar.

- Não, não! Quero ter a certeza! Vá devagar e não tenha pressa de voltar!

Lá fui cumprir a ordem, mas fiquei intrigado com as palavras do Alferes. Passados uns bons minutos resolvo regressar para o informar da existência dos óleos.

Quando me aproximo do bar ouço a voz do Alferes, em tom agreste, dizer que a indisciplina, as bebedeiras vão acabar. De ora em diante o Quitexe está sob controlo militar e ele, como comandante, não vai tolerar a continuação das ameaças e falta de respeito que põem em causa a penosa defesa da povoação. Fiquei cá fora, esperando que o militar acabasse a reprimenda. Quando saiu fui ao seu encontro para lhe dar conta dos óleos.

- Senhor Garcia, eu não preciso de óleos nenhuns! Não queria era que assistisse ao que ia dizer a toda aquela gente e pensasse que as minhas palavras também eram dirigidas a si.

Sem mais palavras, despediram-se com um até amanhã e regressaram ao Posto.
As palavras do alferes comoveram-me. Finalmente alguém reconhecia o mérito e a bondade das minhas atitudes nesta guerra diabólica.

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João Nogueira Garcia 

publicado por Quimbanze às 22:37

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Histórias na tragédia

Aproximavam-se as férias da Páscoa, e a maioria das crianças ainda estava nos colégios, em Luanda. Vítor Poço, por acaso, viera mais cedo. Tinha 14 anos e nas folgas ajudava a família, tomava conta da criação e dava uma mão na cantina. Vendem de tudo, coisas que a mãe, Ester Poço, costura, mercearia, pão e vinho, este, diga-se a bem da verdade aldrabado.

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Na véspera, um grupo de oito homens aparecera para se abastecer e só levara grande quantidade de sal e fósforos. Vítor estranhou e nunca chegou a perceber a razão de semelhantes gastos. Jaime Weba, um dos rebeldes, pensou em tudo e bem: “Como íamos para a mata sem saber por quanto tempo, o sal era essencial para a alimentação, e os fósforos desfazíamos, misturávamos com pólvora e enchíamos os pipos dos canhangulos.” No dia seguinte, Weba volta à fazenda com os oito homens, mas agora para reclamar o que é seu. Ester poço não era mulher receosa, mas, ao ouvir o grupo trocar entre dentes algumas palavras com os seus criados, pareceu-lhe escutar qualquer coisa de armas e catanas. Fica alerta.

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Tinha nascido perto de Pombal, o Pai era mestre-de-obras, tinha umas courelas, gado e pastores, uma taberna. Muito trabalho, mas muita fartura. Casou com um primo direito, Arnaldo e partem para Angola, desencaminhados pelo irmão do marido, um tal António.

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Formam uma sociedade, demarcam um terreno, registam-no na administração. Passados 5 anos de muita labuta, quando finalmente a terra ia dar café, Arnaldo é enganado pelo salafrário de irmão.

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Ester conhece pela primeira vez dificuldades, chegam a não ter que comer. Começam do zero. Fazem nova demarcação perto do Quitexe, na zona do Ambuíla, erguem uma casa de estacas com barro amassado, um comerciante piedoso adiante-lhes os alimentos, dormem numa tarimba com os filhos, que têm medo das feras. Mas lá se aguentam. Arnaldo desloca um morro de salalé, e é lá que Ester cose o pão. Chega a parir sozinha.

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Não era mulher para esmorecer, e foi a fazer costura para os negros, quimonos, colchões, que pôs a roça a funcionar. Não tem licença para vender na cantina, mas é grande a necessidade. Em Carmona compra tecidos que vêm do Congo, vende sal, fósforos e outras ninharias: “Admito que tive que fazer isso, mas não fazia grandes preços, não explorava”. Quando as coisas começaram a andar, um dos bailundos avisa Arnaldo de que havia armamento nas sanzalas. Ele fez o seu dever, participou ao chefe do posto, que não ligou.

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Quando a revolta começa, Ester já está no terreiro. Lá de cima vê o marido entre os contratados a fazer um alinhamento para o cacau. Eram seis da manhã, mais coisa menos coisa, quando aparece o grupo do dia anterior. Dividem-se, seis vão na direcção  de Arnaldo e os outros vêm ter com ela. Entretanto um dos criados aproxima-se da casa. Intui a armadilha: “Ai que me vai roubar a arma”. Corre na direcção de Vítor e passa-lhe o revólver. “Se precisares, faz fogo”. Já outro ía direito à casa da empregada, a Eduarda. Ester que sabe que lá há uma caçadeira, tenta chegar primeiro. Retira a espingarda da parede, enfia-lhe dois cartuchos e dá um tiro para o ar. Da Eduarda nem rasto, só os filhitos lá estão, muito encolhidos num canto. Sai para o terreiro quando ouve um grito de aflição. Era o marido que tombara na fiada de cacau. Atrás dela um guerrilheiro de catana erguida. Dá mais dois tiros, e o grupo, que não esperava o atrevimento da mulher, põe-se em fuga. Vitor e os irmãos correm na direcção da mãe. E é nesse momento que chega a empregada empapada em sangue. Os filhos agarram-se à bata preta, desbotada, com riscas vermelhas. Senta-se no chão, espera o fim. “Vimo-la acabar-se, com a aflição da morte agarrou-se a uma cadeira e deitou-a para cima dela.”

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Durante uma semana, Ester anda de caçadeira à cinta, desgovernada da cabeça: “pensava que ía morrer e só pensava em matar, em vingar-me.”

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Retirado do jornal O Expresso – Revista – 14/03/98

 

 Texto de Felícia Cabrita

publicado por Quimbanze às 22:29

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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Histórias na tragédia

O Velho Canzenza

 

O velho Canzenza simbolizava a alma da velha cultura e do poder africano, exercido em paralelo com o da administração portuguesa. A solução dos grandes problemas surgidos no seio das comunidades e no interior das sanzalas estava a cargo de Os Mais Velhos que eram pessoas de muito respeito, não só por serem velhos, mas pelo saber e experiência que tinham da vida africana. São, os mais velhos, homens como o Canzenza, perante os quais os mais novos se curvam e batem palmas em sinal de muito respeito. Nas sanzalas desenrola-se uma vida primitiva, sem qualquer conforto (aos olhos dos brancos) mas onde a natureza, a família e o amor têm regras seculares que se transmitem de geração em geração.

 

Foi na pequena sanzala, logo à saída do Quitexe, na estrada que vai para Camabatela, que o velho Canzenza foi obrigado a fixar-se desde 1947/48 vindo de  longe, da serra do Cananga. Lá vivia rodeado de uma numerosa família e era possuidor de grandes lavras de café.

 

A ordem do Muniputo (Administração Portuguesa) viera. Tinha que abandonar a sua serra e fixar-se junto à estrada, perto do Posto Administrativo do Quitexe, a uns 40 ou 50 Km. Foi-lhe entregue um bocado de terreno junto ao Rio Gio perto da  sanzala com um nome bem português – Aldeia. Lá construiu nove cubatas onde instalou as nove mulheres que trouxera consigo e os numerosos filhos que as quatro mulheres mais novas lhe iam dando todos os anos. Os outros filhos, das mulheres mais velhas, também já com certa idade, por lá ficaram, fixando-se junto a S. José do Encoge.

 

O velho Canzenza era uma figura imponente, saudável, com perto de dois metros de altura e, talvez, oitenta anos. À volta da cabeça uma carapinha muito branca da qual sobressai uma calvície que afirma vir já dos temos de juventude, quando, integrado em colunas de carregadores, levava à cabeça os sacos cheios da café para Luanda. Atravessavam toda a região dos Dembos, mais de 300 Km, e depois voltavam carregados com sacos de sal e outras mercadorias. Disse-me que, diversas vezes, se cruzaram com as tropas do General João de Almeida que em 1907 subjugou e pacificou toda essa região.

 

A partir de 1949 o café começa a subir nas cotações internacionais, o seu preço aumenta.

 

Em Luanda há uma corrida em direcção ao Norte. Todos querem ser fazendeiros: médicos, engenheiros, advogados, comerciantes, juízes,

reformados do exército e também muitos aventureiros; vêm todos à procura do ouro negro.

 

  

 Estamos no ano de 1951. O velho Canzenza é chamado ao posto onde o Chefe lhe diz que as suas antigas lavras de café na serra do Cananga e as matas em redor foram demarcadas por um senhor médico, reformado do exército. O Chefe do Posto intimou o  Velho Canzenza para, no outro dia, lhes ir  mostrar todas as lavras lá existentes. Ele, que três anos antes fora obrigado a abandoná-las, regressa, agora, para as entregar ao branco vindo de Luanda. Podia ser que o branco, em troca, lhe desse uma boa retribuição...

 

            Então, já lá nas matas, começa o diálogo através dum cipaio, como intérprete. O Velho, embora falasse português estava obrigado pela tradição tribal a só falar, com as autoridades, na sua própria língua. Tanto mais que o médico levava vestida a sua farda de oficial do exército.

 

O velho Canzenza diz, em quimbundo para o cipaio traduzir, que gostava de saber o que ia receber em troca pelas suas terras. O oficial médico ao ouvir a tradução vira-se para o velho e exclama apontando para a sua própria farda e as divisas de tenente:

 

-         Eu sou Muniputo, estás a ver...

 

O cipaio traduziu para quimbundo as palavras do oficial médico:

 

-         Ele era Estado Português e por isso nada tinha a pagar.

 

O velho conhecia bem a expressão Muniputo; Em quimbundo quer dizer muni – pequeno, puto – Portugal (representante de Portugal) e a medo apenas exclamou:

 

-         Cariambuco, cariambuco (acabou, acabou – nada tenho a dizer).

 

E, assim regressaram ao Quitexe, o Velho mais pobre e o branco, mais rico, talvez já colha, nesse ano, umas toneladas de café nas lavras abandonadas.

 

 

No dia 15 de Março o Canzenza havia mandado as mulheres e os filhos para as lavras de café junto à fazenda do Guerra & Companhia. Ele ficara na sua sanzala que ficava a menos de 1 Km do Quitexe. Por certo saberia o que se tinha passado nessa manhã. Ao cair da noite, uma carrinha vinda dos lados de Camabatela aproxima-se da sanzala. O velho lá está vestido com os tradicionais panos. Da carrinha são disparados tiros e o Canzenza cai ao chão. A viatura não para, segue para o Quitexe e o R...... anuncia que acabava de matar o Canzenza.

 
No dia 18 de Março o Quitexe está em pé de guerra, cheio de gente. Por altura do meio-dia é dado o sinal de alerta, todos correm a pegar em armas. Um preto, possivelmente um “turra” aparece de mãos no ar, entre a estrada para Luanda e os escritórios da Tecnil, dirigindo-se para o Posto Administrativo. Aproxima-se e passa entre alguns brancos de armas apontadas. Vou ver de quem se trata e, meu Deus, que vejo eu! A figura imponente do velho Canzenza. Tal como Jesus Cristo, que ao terceiro dia ressuscitou, também o velho Canzenza faz de novo a sua aparição no reino dos vivos.  Afastei-me cobardemente, para que ele não me visse. Eu não estava em condições de lhe poder valer, pois, dias antes, eu também havia sido ameaçado de morte pelos brancos. Horas mais tarde, soube que havia sido entregue à Pide e tinha sido levado para o Uíge para interrogatório. Pobre Canzenza, por certo nunca mais voltaria e as autoridades portuguesas teriam perdido um dos elos mais fortes do convívio pacífico entre os Portugueses e os Africanos: apesar de tudo, Os Mais Velhos gostavam dos Portugueses!

 

No dia seguinte, tentei saber alguma coisa sobre o velho, mas nada, ainda estava no Uíge. No terceiro dia alguém me veio dizer que ele havia voltado e ia ser libertado vivo na sua sanzala. Talvez o tenham deixado lá, mas morto. Os seus filhos encontraram-no e terão levado o seu cadáver para as matas onde estava o resto da família.

 

Nessa noite, por volta da meia-noite somos alertados pelo som forte dos tambores que, espaçadamente, tocam durante muitos minutos. O som parece vir das matas situadas para lá do rio Luquixe. Pouco depois, na serra do Quimbinda, outros tambores ressoam no mesmo ritmo, por largos minutos. Agora, é na serra do Quitoque, os tambores, como que respondendo ao apelo fazem-se ouvir. Já perto da madrugada é ouvido um som muito fraco para os lados do Mungage e da serra do Cananga. No outro dia, alguém conhecedor dos rituais africanos afirma que se tratou do envio de uma mensagem importante das matas do outro lado do rio Luquixe para as matas longínquas  da serra do Cananga. No dia seguinte, já noite avançada, os tambores começam de novo a rufar, mas agora continuamente, em ritmo de batuque:

 

-         Pum, cata pum pum, pum cata pum pum, pum...

Afinal, naquela primeira noite, os tambores ressoavam anunciando por montes e vales a morte do Velho Canzenza e continuaram a tocar durante três dias em sua memória.

Quitexe 61 - uma tragédia anunciada, João Nogueira Garcia

publicado por Quimbanze às 20:02

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Sexta-feira, 26 de Outubro de 2007

Histórias na tragédia

“Eugénia, Geninha para a mãe, ainda não tinha idade para ter história nem imaginação para tragédias. Contava-se pelos dedos de uma mão a sua idade, vivida em liberdade na vila de Quitexe.

 

O pai, Mário da Ressureição, nascido nas bandas de Figueira de Castelo Rodrigo, anda como capataz numa fazenda até que se estabelece por conta própria. Casa por procuração com Ilda dos Prazeres, que embarca no Vera Cruz e se junta a ele.

Assentam no Quitexe, abrem um pequeno comércio e começam a explorar uma fazenda de café.

 

Durante uns anos, tudo correu de feição, até que sobreveio a desgraça.

Naquela quarta-feira, seriam talvez umas 8h30, tomava o pequeno-almoço na varanda com a irmã Laura, bebé de meses, e a prima Beatriz. Ainda o sol estava escondido e já a vila se encontrava cercada. Na mata, bandos de guerrilheiros andavam como onças, sem barulho, esperavam que o comércio abrisse.

 

Mário, o pai, baixo e entroncado, saíra de casa à hora do costume. Às 7h30 enfia-se no estabelecimento para pôr as contas em ordem e abre as portas aos fregueses matinais, amigos do palhete ou de um copito de rija. Meia hora depois aparecem os primeiros clientes, caras conhecidas das sanzalas em volta. Vinham abastecer-se de tabaco. Mal Mário se vira, uma catana crava-se-lhe nas costas. Aos gritos de “UPA, UPA, mata, mata”, o comerciante fica em postas.

 

A poucos metros, Ilda, que tratava da criação no quintal, não ouve o mais pequeno rumor. As meninas terminaram a refeição, e Beatriz, aproveitando-se da autoridade de dois anos a mais, pede a Geninha que vá buscar água à cozinha. No corredor, bem lá no fundo, avista o criado que a chama. O homem perdera a docilidade, mas a catraia não se apercebe e aproxima-se confiante. De repente Lucas segura-a pelo braço e levanta a catana. “Logrei escapar-me da mão dele e corri para a minha mãe”. Sabe-se lá porquê, naquele segundo percebeu que o perigo chegara para todos. No quintal, onde Ilda colhe couves para a sopa, chega ao mesmo tempo a prima com o bebé. A mulher arrasta as filhas e grita: “Foge, Beatriz, esconde-te!”. Dirige-se à loja na esperança que o marido lhe valha. Mas fica encurralada à saída do portão. Meia dúzia de negros cortam-lhe a passagem. Geninha esconde-se debaixo de um camião e ainda recorda o grito da mãe; “Ah! Ah!”. Ficou de bruços, um braço dobrado na cabeça, não se via nico de sangue.

 

A menina, debaixo da carroçaria, via tudo o que se passava em volta. Um comerciante que morreu sem se mexer, olhos espantadiços e uma lâmina atarraxada no crânio, o sangue a jorrar em repuxo, parecia um estaca, nem reagiu. E a mãe, ao longe sem responder ao seu desespero. E a irmã Laura onde estaria? Beatriz, caída ao lado do galinheiro já com umas catanadas na barriga que punham a descoberto o fígado, dizia aos negros que a olhavam indiferentes: “Não me mates, que eu dou-te pão.” Um deles convicto de que os sonhos do império estavam nos ouvidos das crianças, responde-lhe: “Não queremos cá pão, queremos sangue, porque as crianças de hoje são os colonos de amanhã”.

 

Geninha tem tudo gravado numa dobra de memória, e, à medida que fala, os acontecimentos surgem-lhe ampliados como por uma lupa.

Estava escondida entre as rodas do camião, gritava pela mãe, que não dizia palavra. A menina vestia uns calções com florzinhas e ainda se lembra do Lucas a puxá-la pelos pés. A catana caía às cegas na cabeça, nas pernas, dava-lhe, dava-lhe, e ela nada. O seu amigo não para de maltratá-la. Desmaia. Às tantas, acorda, grita pela mãe, que não lhe acode. Na boca, uma papa de sangue, mal respira, precisa de água: “Mãe, tenho sede”. Levanta-se. A prima, do outro lado, sussurra: “Não saias, Geninha, que ainda há pretos em casa”. Mas levanta-se, caminha aos tombos. O criado, ao vê-la, fica pasmado: “Olha, esta parece que tem sete vidas.” E dá-lhe mais uns tantos golpes nos ombros.”

 

 Retirado do jornal O Expresso – Revista – 14/03/98

 

 Texto de Felícia Cabrita

 

 

“No terceiro avião chegaram cinquenta e sete mulheres e crianças, toda a história das tragédias de seiscentos mortos e Eugénia Leonor Soares da Ressurreição, de 5 anos, a quem mataram pai, mãe e irmãos, tão desumanamente mutilada que o seu rosto seráfico era já o de um anjo fora da terra.”

 

Angola -Os dias do desespero, Horácio Caio (que dedica o livro a Eugénia da Ressurreição)

publicado por Quimbanze às 23:51

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Terça-feira, 23 de Outubro de 2007

A repressão

Após o ataque ao Quitexe as populações das grandes sanzalas como o Catulo, Dambi Angola, Ambuíla e o Quitoque permaneceram nelas, pacificamente. Os carros circulavam no seu interior, sem qualquer hostilidade. Há como que uma pausa para avaliar a situação pois creio que, embora todos os pretos estejam ao corrente do que se passa , inicialmente, só uma pequena parte terá aderido à UPA e ao ataque ao Quitexe e às fazendas. A UPA só conseguiu alguns êxitos no primeiro dia dada a surpresa, pois se estivessem as fazendas alertadas, tudo tinha sido diferente. As autoridades estavam, afinal, a par do que iria acontecer, dia e hora, como posteriormente se veio a saber. Porque não alertaram as fazendas e as povoações da iminência do ataque? Porque deixaram morrer tantos brancos, mulheres e crianças sem saberem por que estavam a ser esquartejados à catanada?

 

            A UPA, à semelhança do que se passou no Congo Belga, confiou que os brancos, cheios de medo, abandonassem em fuga as suas terras, o que, por pouco não conseguiu. Só, talvez a presença  de largos milhares de contratados do Sul, agora todos classificados de Bailundos o terá evitado. Só na área do Posto do Quitexe haverá quatro ou cinco vezes mais Bailundos que toda a população local africana. Por variadas razões estão totalmente ao nosso lado e, assim evitam que a actividade cafeícula  paralise. E foi, graças ao valor económico do café e à permanência dos Bailundos nesta região, que a maioria das fazendas, entregues a gerentes e empregados brancos conseguiu manter-se em laboração. Estes, à noite, ainda ajudavam na defesa do Quitexe. Os comerciantes abalaram para Luanda; sem os povos das sanzalas nada mais os prendia aqui: não havia a quem vender, nem a quem comprar.

 

 A repressão que se segue é brutal. Não se procura uma alternativa. Entretanto, eu e o Martins Gonçalves propomos tentar entrar em contacto com as sanzalas, mas a nossa sugestão é liminarmente excluída: não havia ordem para isso.

 

            As sanzalas são metralhadas e incendiadas. Homens, mulheres, velhos e crianças iniciam a debandada; levam consigo os poucos haveres que conseguem reunir. O seu destino são as matas impenetráveis da Serra do Quimbinde, da Serra do Quitoque, do maciço da Serra do Cananga. Vão, quem sabe, à procura dos lugares dos seus antepassados, de onde, um dia, foram obrigados a sair, pela força, para se fixarem junto às estradas que correm no sopé das serras e dão acesso aos Postos Administrativos e, agora, às povoações da população branca e às sanzalas africanas.

 

            A morte de todos os pretos da região, sentenciada pela Pide, braço da repressão do governo, secundada pelos agentes das autoridades administrativas e outros mais sedentos de vingança, conseguiu, em poucos dias destruir o equilíbrio simbólico que existia entre o poder das autoridades portuguesas e o poder africano do sobas.

 

            O bom relacionamento dos comerciantes com os povos das sanzalas era fruto de uma actividade onde os interesses mútuos se cruzavam. Para o comerciante do mato é do bom relacionamento com os nativos que depende a sua própria sobrevivência e foi este equilíbrio estável que foi irremediavelmente perdido. E, assim, de maneira pouco política e irresponsável, as autoridades portuguesas entregaram à guarda da UPA, grupo armado de assassinos  ao serviço dos interesses americanos, os povos com quem convivemos durante centenas de anos. Este convívio nem sempre foi feito da melhor maneira, mas mais por culpa das autoridades que preferiam, em vez do respeito mútuo, incutir em terra alheia a submissão e o medo, esquecendo os valores do humanismo cristão que tanto apregoavam.

 

            Só muito mais tarde adoptaram a política da “psico”, tentando atrair as populações africanas a aldeamentos modelo guardados pelos “flechas” e visitados pelos altos governantes, como exemplo da convivência com os povos nativos.

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Quitexe 61 - Uma Tragédia Anunciada, João Nogueira Garcia

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Ler + em Quitexe - 61

 

publicado por Quimbanze às 19:04

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Domingo, 21 de Outubro de 2007

TU NÃO VISTE NADA EM ANGOLA, Francisco Marcelo Curto, Centelha, 1983

São muitos os ex-combatentes da guerra colonial que nos retratam as suas aventuras, os seus dramas, os seus medos, as suas impressões, as suas angústias vividas no teatro de guerra que passa, quase sempre pelo norte de Angola. Em forma de novelas, crónicas, contos ou simples diários vão-nos relatando as suas experiências vividas no auge da juventude. Muitos deles passaram pelo Quitexe pelo que é recorrente encontrarmos o nome desta vila nas suas memórias vertidas para o papel.
O livro que trazemos hoje, de Francisco Marcelo Curto, é um desses casos. “Tu não viste nada em Angola”, título parafraseado do poema de Manuel Alegre (Em Nambuangongo tu não viste nada/não viste nada nesse dia longo longo/a cabeça cortada/e a flor bombardeada/não tu não viste nada em Nambuangongo), é a descrição de uma campanha que começa em Junho de 61 com a chegada a Luanda e só termina dois anos depois em 63. As primeiras impressões em Luanda, depois a partida para o norte, a guerra cruel, como todas as guerras e já a percepção de que nada fazia sentido:

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IRONIA

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Havia pancadas sonoras na cara escura

pancadas que pareciam o bordão de uma viola a ecoar

pancadas repetidas e sincopadas

pancadas jazz

As palmatoadas é que eram desagradáveis ao ouvido

Mergulhavam na carne da palma da mão

com um ruído sem interesse

Até que o homem branco pegou no chicote

e o cair do chicote nas costas escuras

produzia um som límpido e agudo

que deixou os outros bem dispostos

e confiantes no futuro

 

Angola 1.04.62 

 

Ler mais em  O QUITEXE NA LITERATURA

publicado por Quimbanze às 15:52

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Terça-feira, 16 de Outubro de 2007

A guerra

Depois de assistir ao documentário sobre a guerra colonial, não posso deixar de recordar uns versos do meu Pai do seu livro "Roteiro Sentimental":

 

  A GUERRA - 1961 - QUITEXE

 

Estamos metidos num gueto

Mesmo à beira do barranco

Mata-se o branco por ser branco

E o preto só por ser preto

 

A guerra tudo destrói

E com a sua crueldade

É uma chaga que dói

Na vida da Humanidade

 

O homem fica demente

Perde o uso da razão

Deixa mesmo de ser gente

Vira abutre ou gavião

 

No horror da luta armada

Jaz no chão uma criança

Desventrada à catanada

 

Ó meu Deus, como consentes

Tanto ódio acumulado

Tanta morte de inocentes

Tanto sangue derramado.

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.João Nogueira Garcia

publicado por Quimbanze às 22:36

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Segunda-feira, 15 de Outubro de 2007

2000 VISITAS

É nestas ocasiões que me convenço que vale a pena o esforço e as horas perdidas (ou ganhas?) com a manutenção deste blogue. Sei que somos poucos e a divulgação é difícil mas, lentamente, já tivemos 2000 visitas desde Junho, quando lançamos o blogue.

Obrigado pelo vosso interesse, mas apelo, também, à vossa colaboração. Como diz o título, este é um espaço aberto para a divulgação de dados históricos, demográficos, sociológicos e etnográficos desta vila angolana. Participem!

João Garcia

publicado por Quimbanze às 22:20

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Comentário à fotografia do jogo de futebol

É com muita alegria que começamos a receber os nomes dos jogadores.

Um grande abraço ao Jorge Santos. O nome do teu Pai já foi incluido na lista. Obrigado!

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"Caros amigos do Quitexe: Foi com grande emoção que "tropecei" aqui neste site e me deparei com a foto do meu Pai no grupo dos casados. O meu Pai é o nº 12 da foto e é o SANTOS do "Guerra & Cª ". Eu sou o filho mais novo o Jorge agora com 42 anos.

A todos os que como eu viveram naquela maravilhosa Vila do Quitexe envio um ABRAÇO do tamanho do Mundo..."

Jorge Santos

publicado por Quimbanze às 22:04

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Terça-feira, 9 de Outubro de 2007

angola os dias do desespero - Horácio Caio

No blogue O Quitexe na Literatura é apresentado o livro de Horácio Caio - angola, os dias do desespero.
publicado por Quimbanze às 21:41

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Sexta-feira, 5 de Outubro de 2007

Ainda não foi desta

Fizeram ontem 50anos desde que foi lançado pelos soviéticos o primeiro satélite artificial. Desde esse dia a tecnologia espacial não deixou de avançar e temos hoje à nossa disposição o Google Earth. Este é cada vez mais um instrumento poderoso para se conhecer o mundo, sem sair de casa. Mas o conhecimento das zonas depende da resolução da fotografia de satélite. Há pouco tempo apareceu o corredor Negage / Camabatela com óptima resolução. Agora foi a vez da faixa desde Aldeia Viçosa até N'Dalatando. Ainda apanha Dambi N'gola, pertencente ao antigo posto do Quitexe, mas mais nada. Que pena! Esperemos que em breve apareça o corredor Uíge / Quitexe. De qualquer modo não deixem de visualizar. Vêm-se as obras na estrada para Luanda. A fotografia é de 23/06/2006, portanto quando chegar a vez do Quitexe já a veremos asfaltada.

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Dambi N'Gola / Dombe ia Gola / Dambi Angola

 

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 Aldeia  Viçosa

 

 

 

 

publicado por Quimbanze às 15:00

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