Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Histórias na tragédia

O Velho Canzenza

 

O velho Canzenza simbolizava a alma da velha cultura e do poder africano, exercido em paralelo com o da administração portuguesa. A solução dos grandes problemas surgidos no seio das comunidades e no interior das sanzalas estava a cargo de Os Mais Velhos que eram pessoas de muito respeito, não só por serem velhos, mas pelo saber e experiência que tinham da vida africana. São, os mais velhos, homens como o Canzenza, perante os quais os mais novos se curvam e batem palmas em sinal de muito respeito. Nas sanzalas desenrola-se uma vida primitiva, sem qualquer conforto (aos olhos dos brancos) mas onde a natureza, a família e o amor têm regras seculares que se transmitem de geração em geração.

 

Foi na pequena sanzala, logo à saída do Quitexe, na estrada que vai para Camabatela, que o velho Canzenza foi obrigado a fixar-se desde 1947/48 vindo de  longe, da serra do Cananga. Lá vivia rodeado de uma numerosa família e era possuidor de grandes lavras de café.

 

A ordem do Muniputo (Administração Portuguesa) viera. Tinha que abandonar a sua serra e fixar-se junto à estrada, perto do Posto Administrativo do Quitexe, a uns 40 ou 50 Km. Foi-lhe entregue um bocado de terreno junto ao Rio Gio perto da  sanzala com um nome bem português – Aldeia. Lá construiu nove cubatas onde instalou as nove mulheres que trouxera consigo e os numerosos filhos que as quatro mulheres mais novas lhe iam dando todos os anos. Os outros filhos, das mulheres mais velhas, também já com certa idade, por lá ficaram, fixando-se junto a S. José do Encoge.

 

O velho Canzenza era uma figura imponente, saudável, com perto de dois metros de altura e, talvez, oitenta anos. À volta da cabeça uma carapinha muito branca da qual sobressai uma calvície que afirma vir já dos temos de juventude, quando, integrado em colunas de carregadores, levava à cabeça os sacos cheios da café para Luanda. Atravessavam toda a região dos Dembos, mais de 300 Km, e depois voltavam carregados com sacos de sal e outras mercadorias. Disse-me que, diversas vezes, se cruzaram com as tropas do General João de Almeida que em 1907 subjugou e pacificou toda essa região.

 

A partir de 1949 o café começa a subir nas cotações internacionais, o seu preço aumenta.

 

Em Luanda há uma corrida em direcção ao Norte. Todos querem ser fazendeiros: médicos, engenheiros, advogados, comerciantes, juízes,

reformados do exército e também muitos aventureiros; vêm todos à procura do ouro negro.

 

  

 Estamos no ano de 1951. O velho Canzenza é chamado ao posto onde o Chefe lhe diz que as suas antigas lavras de café na serra do Cananga e as matas em redor foram demarcadas por um senhor médico, reformado do exército. O Chefe do Posto intimou o  Velho Canzenza para, no outro dia, lhes ir  mostrar todas as lavras lá existentes. Ele, que três anos antes fora obrigado a abandoná-las, regressa, agora, para as entregar ao branco vindo de Luanda. Podia ser que o branco, em troca, lhe desse uma boa retribuição...

 

            Então, já lá nas matas, começa o diálogo através dum cipaio, como intérprete. O Velho, embora falasse português estava obrigado pela tradição tribal a só falar, com as autoridades, na sua própria língua. Tanto mais que o médico levava vestida a sua farda de oficial do exército.

 

O velho Canzenza diz, em quimbundo para o cipaio traduzir, que gostava de saber o que ia receber em troca pelas suas terras. O oficial médico ao ouvir a tradução vira-se para o velho e exclama apontando para a sua própria farda e as divisas de tenente:

 

-         Eu sou Muniputo, estás a ver...

 

O cipaio traduziu para quimbundo as palavras do oficial médico:

 

-         Ele era Estado Português e por isso nada tinha a pagar.

 

O velho conhecia bem a expressão Muniputo; Em quimbundo quer dizer muni – pequeno, puto – Portugal (representante de Portugal) e a medo apenas exclamou:

 

-         Cariambuco, cariambuco (acabou, acabou – nada tenho a dizer).

 

E, assim regressaram ao Quitexe, o Velho mais pobre e o branco, mais rico, talvez já colha, nesse ano, umas toneladas de café nas lavras abandonadas.

 

 

No dia 15 de Março o Canzenza havia mandado as mulheres e os filhos para as lavras de café junto à fazenda do Guerra & Companhia. Ele ficara na sua sanzala que ficava a menos de 1 Km do Quitexe. Por certo saberia o que se tinha passado nessa manhã. Ao cair da noite, uma carrinha vinda dos lados de Camabatela aproxima-se da sanzala. O velho lá está vestido com os tradicionais panos. Da carrinha são disparados tiros e o Canzenza cai ao chão. A viatura não para, segue para o Quitexe e o R...... anuncia que acabava de matar o Canzenza.

 
No dia 18 de Março o Quitexe está em pé de guerra, cheio de gente. Por altura do meio-dia é dado o sinal de alerta, todos correm a pegar em armas. Um preto, possivelmente um “turra” aparece de mãos no ar, entre a estrada para Luanda e os escritórios da Tecnil, dirigindo-se para o Posto Administrativo. Aproxima-se e passa entre alguns brancos de armas apontadas. Vou ver de quem se trata e, meu Deus, que vejo eu! A figura imponente do velho Canzenza. Tal como Jesus Cristo, que ao terceiro dia ressuscitou, também o velho Canzenza faz de novo a sua aparição no reino dos vivos.  Afastei-me cobardemente, para que ele não me visse. Eu não estava em condições de lhe poder valer, pois, dias antes, eu também havia sido ameaçado de morte pelos brancos. Horas mais tarde, soube que havia sido entregue à Pide e tinha sido levado para o Uíge para interrogatório. Pobre Canzenza, por certo nunca mais voltaria e as autoridades portuguesas teriam perdido um dos elos mais fortes do convívio pacífico entre os Portugueses e os Africanos: apesar de tudo, Os Mais Velhos gostavam dos Portugueses!

 

No dia seguinte, tentei saber alguma coisa sobre o velho, mas nada, ainda estava no Uíge. No terceiro dia alguém me veio dizer que ele havia voltado e ia ser libertado vivo na sua sanzala. Talvez o tenham deixado lá, mas morto. Os seus filhos encontraram-no e terão levado o seu cadáver para as matas onde estava o resto da família.

 

Nessa noite, por volta da meia-noite somos alertados pelo som forte dos tambores que, espaçadamente, tocam durante muitos minutos. O som parece vir das matas situadas para lá do rio Luquixe. Pouco depois, na serra do Quimbinda, outros tambores ressoam no mesmo ritmo, por largos minutos. Agora, é na serra do Quitoque, os tambores, como que respondendo ao apelo fazem-se ouvir. Já perto da madrugada é ouvido um som muito fraco para os lados do Mungage e da serra do Cananga. No outro dia, alguém conhecedor dos rituais africanos afirma que se tratou do envio de uma mensagem importante das matas do outro lado do rio Luquixe para as matas longínquas  da serra do Cananga. No dia seguinte, já noite avançada, os tambores começam de novo a rufar, mas agora continuamente, em ritmo de batuque:

 

-         Pum, cata pum pum, pum cata pum pum, pum...

Afinal, naquela primeira noite, os tambores ressoavam anunciando por montes e vales a morte do Velho Canzenza e continuaram a tocar durante três dias em sua memória.

Quitexe 61 - uma tragédia anunciada, João Nogueira Garcia

publicado por Quimbanze às 20:02

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