Sexta-feira, 26 de Outubro de 2007

Histórias na tragédia

“Eugénia, Geninha para a mãe, ainda não tinha idade para ter história nem imaginação para tragédias. Contava-se pelos dedos de uma mão a sua idade, vivida em liberdade na vila de Quitexe.

 

O pai, Mário da Ressureição, nascido nas bandas de Figueira de Castelo Rodrigo, anda como capataz numa fazenda até que se estabelece por conta própria. Casa por procuração com Ilda dos Prazeres, que embarca no Vera Cruz e se junta a ele.

Assentam no Quitexe, abrem um pequeno comércio e começam a explorar uma fazenda de café.

 

Durante uns anos, tudo correu de feição, até que sobreveio a desgraça.

Naquela quarta-feira, seriam talvez umas 8h30, tomava o pequeno-almoço na varanda com a irmã Laura, bebé de meses, e a prima Beatriz. Ainda o sol estava escondido e já a vila se encontrava cercada. Na mata, bandos de guerrilheiros andavam como onças, sem barulho, esperavam que o comércio abrisse.

 

Mário, o pai, baixo e entroncado, saíra de casa à hora do costume. Às 7h30 enfia-se no estabelecimento para pôr as contas em ordem e abre as portas aos fregueses matinais, amigos do palhete ou de um copito de rija. Meia hora depois aparecem os primeiros clientes, caras conhecidas das sanzalas em volta. Vinham abastecer-se de tabaco. Mal Mário se vira, uma catana crava-se-lhe nas costas. Aos gritos de “UPA, UPA, mata, mata”, o comerciante fica em postas.

 

A poucos metros, Ilda, que tratava da criação no quintal, não ouve o mais pequeno rumor. As meninas terminaram a refeição, e Beatriz, aproveitando-se da autoridade de dois anos a mais, pede a Geninha que vá buscar água à cozinha. No corredor, bem lá no fundo, avista o criado que a chama. O homem perdera a docilidade, mas a catraia não se apercebe e aproxima-se confiante. De repente Lucas segura-a pelo braço e levanta a catana. “Logrei escapar-me da mão dele e corri para a minha mãe”. Sabe-se lá porquê, naquele segundo percebeu que o perigo chegara para todos. No quintal, onde Ilda colhe couves para a sopa, chega ao mesmo tempo a prima com o bebé. A mulher arrasta as filhas e grita: “Foge, Beatriz, esconde-te!”. Dirige-se à loja na esperança que o marido lhe valha. Mas fica encurralada à saída do portão. Meia dúzia de negros cortam-lhe a passagem. Geninha esconde-se debaixo de um camião e ainda recorda o grito da mãe; “Ah! Ah!”. Ficou de bruços, um braço dobrado na cabeça, não se via nico de sangue.

 

A menina, debaixo da carroçaria, via tudo o que se passava em volta. Um comerciante que morreu sem se mexer, olhos espantadiços e uma lâmina atarraxada no crânio, o sangue a jorrar em repuxo, parecia um estaca, nem reagiu. E a mãe, ao longe sem responder ao seu desespero. E a irmã Laura onde estaria? Beatriz, caída ao lado do galinheiro já com umas catanadas na barriga que punham a descoberto o fígado, dizia aos negros que a olhavam indiferentes: “Não me mates, que eu dou-te pão.” Um deles convicto de que os sonhos do império estavam nos ouvidos das crianças, responde-lhe: “Não queremos cá pão, queremos sangue, porque as crianças de hoje são os colonos de amanhã”.

 

Geninha tem tudo gravado numa dobra de memória, e, à medida que fala, os acontecimentos surgem-lhe ampliados como por uma lupa.

Estava escondida entre as rodas do camião, gritava pela mãe, que não dizia palavra. A menina vestia uns calções com florzinhas e ainda se lembra do Lucas a puxá-la pelos pés. A catana caía às cegas na cabeça, nas pernas, dava-lhe, dava-lhe, e ela nada. O seu amigo não para de maltratá-la. Desmaia. Às tantas, acorda, grita pela mãe, que não lhe acode. Na boca, uma papa de sangue, mal respira, precisa de água: “Mãe, tenho sede”. Levanta-se. A prima, do outro lado, sussurra: “Não saias, Geninha, que ainda há pretos em casa”. Mas levanta-se, caminha aos tombos. O criado, ao vê-la, fica pasmado: “Olha, esta parece que tem sete vidas.” E dá-lhe mais uns tantos golpes nos ombros.”

 

 Retirado do jornal O Expresso – Revista – 14/03/98

 

 Texto de Felícia Cabrita

 

 

“No terceiro avião chegaram cinquenta e sete mulheres e crianças, toda a história das tragédias de seiscentos mortos e Eugénia Leonor Soares da Ressurreição, de 5 anos, a quem mataram pai, mãe e irmãos, tão desumanamente mutilada que o seu rosto seráfico era já o de um anjo fora da terra.”

 

Angola -Os dias do desespero, Horácio Caio (que dedica o livro a Eugénia da Ressurreição)

publicado por Quimbanze às 23:51

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